Sempre fui avessa a bordados. Na primária tínhamos de fazer trabalhos para o dia da mãe em ponto de cruz. As minhas linhas sobrepunham-se caoticamente em nós, todos os dias perdia uma agulha e ia, com a minha mãe, a quem daria aquele pano com meia dúzia de rosas esparsas, comprar o efémero instrumento de trabalho. Ficava à porta da retrosaria, com vergonha da vendedora. "Mas ela fica toda contente porque vende mais uma agulha!" animava-me a minha mãe, depois de me repreender levemente por ter perdido mais uma!. Quem diria que a minha relação com o bordado se redimiria através de uma novela gráfica: Corpo de Cristo, da autora galega Bea Lema.
Há experiências artísticas anteriores que combinam narrativa e têxtil, de autores como Aurélie William Levaux, Thisou Dartois e Gareth Brookes. Além destes, são dignas de menção as antigas arpilleras chilenas, que inspiraram a autora: bordados artesanais criados por um grupo de mulheres de Isla Negra, entre 1970 e 1990, durante a ditadura de Pinochet. Representavam histórias de resistência e eram discretos meios de denúncia da opressão sofrida, além de meio de subsistência para muitas viúvas. Por razões óbvias, a maioria destes trabalhos eram anónimos ou assinados com iniciais.
Corpo de Cristo está longe do universo político e, apesar destes antecedentes, não deixa de ser uma obra inédita no género porque tem um sentido de unidade narrativa e aborda temas completamente diferentes. É a 1.ª novela gráfica que se serve do bordado (posteriormente digitalizado) para contar e criticar através de pontos e da ilustração a marcador a história de Adela, da doença mental que a assola, e da família, em particular da filha: Vera.
Sem querer desvelar demasiado o enredo, Corpo de Cristo aborda o peso da infância e dos traumas; o amor e cumplicidade entre mãe e filha, que por vezes subvertem papéis; as obsessões e virulentas manias que as enfermidades da mente podem espoletar ou alimentar; a incompreensão de todos aqueles que não as vivem e a sua redução a uma instância diabólica, na falta de melhor bode expiatório. É também, antes de mais, uma homenagem a uma história em parte autobiográfica.
A linguagem é simples; o valor metafórico reside nos desenhos, que tentam expressar a inefabilidade que permeia a doença mental. Há um intento de mostrar o que se esquiva ao categórico regime visual. Por isso, a figura de Adela dissipa-se num traço cada vez menos firmado, à medida que suspende a medicação ou a toma em excesso; a mesa que medeia o psiquiatra e Vera cresce desmesuradamente durante a conversa infrutífera que se desenrola entre ambos, numa tentativa desesperada de ajudar a mãe; e o psiquiatra, com a abordagem exclusivamente medicamentosa, torna-se um gigante a manusear uma Adela miniaturizada.
Este modo pictórico centrado no universo misterioso, quase amorfo ou — pedindo ajuda a um neologismo — "indesenhável" da mente contrasta com a inserção de prescrições (de aparência real) de fármacos psiquiátricos. Parece também haver uma certa ironia e crítica decorrente do desenho realista do cérebro e da interpretação literal professada pelos psiquiatras "Não vemos nada", num eterno confronto entre a vivência insondável da mente e a realidade — em particular a realidade clínica da época, sem outra solução complementar à medicação.
Bea Lema alterna entre traços delicodoces cenários primaveris com árvores floridas. Constrói um clima pueril, benigno, quase cândido, recorrendo ao cor de rosa e amarelo, para logo de seguida o quebrar através de uma economia de cor, cingida ao preto, para representar um local e tempos remotos que fossilizam traumas da adolescência de Adela, numa remota aldeia, em Santiago de Compostela.
Nestas páginas há um demónio vigilante, com manápulas que agarram e condicionam Adela. Chega de noite, impedindo-lhe o sono ou roubando-a do trabalho de costura. É folgazão, toca instrumentos, faz o pino e dança. Aliás, Adela e o diabo são várias vezes representados em sequências de movimento, numa dança neurótica e malsã. Num espectro de luz e inocência, Vera tem aulas de ballet, naquele que parece um deliberado paralelismo visual, que aproxima mãe e filha, já tão indelevelmente vinculadas ao longo da narrativa.
É neste jogo de opções cromáticas, têxteis, de ocupação e contenção na página que se desenrola uma tentativa gráfica de mostrar o que se sente e habita nessa antecâmara, tantas vezes comum, da mente e do coração de mãe e filha. Vale a pena descobrir esta novela gráfica, já amplamente premiada; vê-la com olhos de ler.
Elsa
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Título: Corpo de Cristo
Autora: Bea Lema
Editora: Iguana



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