Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta O que corrigimos

Quantos "se não" e "senão" cabem na língua?

O uso da conjunção "se" seguido de "não" assim como do substantivo "senão" é muitas vezes objeto de mal-entendidos. A semântica e a grafia desencontram-se, originando erros e significados que traem a intenção comunicativa do autor. Muitas vezes nos perguntam quando usar um e outro, qual o sentido e a grafia correspondente. Vejamos.   1) "Se não", como conjunção condicional, com o sentido hipotético, em que a concretização do acto descrito na segunda oração depende da realização da primeira, com o sentido de "no caso de não": ·      Se não comeres de forma saudável, o teu corpo ressentir-se-á. ·      Ficarás desidratado, se não beberes água. ·      Se não gostas da aletria, não a comas!   2) "Senão" com o sentido de consequência, podendo ser substituído pela expressão "caso contrário": ·      Estuda, senão chumbas. ·      Lê os  Lusíadas , senão ...

O particípio passado com valor adjetival

  A  palavra “passado” — não o passado que passou, mas o adjectivo — é muitas vezes erradamente utilizada.  A culpa do erro? Atribuimo-la à confusão com uma outra classe de palavra: o advérbio , que  não  varia em género (masculino e feminino) e número (singular e plural).  Por causa deste quipróquo, dizemos amiúde “passad o ”, mesmo quando deveríamos usar “passada”, “passadas” ou “passados”,  conforme a expressão a que o adjectivo diga respeito. E sta confusão acontece apenas quando se usa o adjectivo num contexto temporal, isto é, com o sentido de  determinado tempo volvido,  já que a ninguém ocorre usar sempre “passado” noutros contextos, como: " A camisa foi mal  passado ."  " Quero os bifes bem  passado , por favor!", " A tarde e a manhã foram bem  passado ."  Toda a gente diz, e bem: A camisa foi mal  passada .  Quero os bifes bem  passados , por favor!  A tarde e a manhã foram bem  pass...

Desapercebido vs Despercebido

A isto se chama um bom disfarce — ou quase passar despercebido. Foto de  Michael Held em  Unsplash Hoje falamos-vos de duas palavras que por vezes se confundem devido às suas semelhanças, mas que têm significados diferentes — o par d esapercebido vs despercebido .   A única diferença na grafia destes dois termos é aquele «a» em «desapercebido» — a passar desapercebido a alguns. Ambos se formam com o prefixo latino -des , que indica oposição/separação em relação ao verbo sem prefixo.  Ora, despercebido é o particípio passado de «desperceber» e  « desapercebido» é o particípio de «desaperceber».  No que toca à semântica, significam coisas muito diferentes. Desapercebido é sinónimo de «desprevenido», «desacautelado», isto é,  « sem a devida preparação, ou ainda  « desprovido de munições ou provisões » . Já «Despercebido» significa:  « que não se viu nem ouviu; que não se notou, a que não se prestou atenção ou que se ignorou » .  Vamos a ex...

Tão pouco e tampouco

  Muitas são as diferenças entre este par e, no entanto, confundimo-lo constantemente. É verdade que nuestros hermanos usam mais do que nós o «tampouco», que parece quase ter caído em desuso entre nós, portugueses. Mas não é difícil usá-lo em condições e orgulhar o peito luso. Na expressão «tão pouco» temos duas palavras. «Tão» é advérbio e «pouco» pode ser usado como advérbio (frase 3.) ou como pronome indefinido, e neste último caso concorda em género e número com o nome a que diz respeito (frases 1, 2 e 4.) Vejamos como e quando usá-las. Ex: 1. Tenho tão pouco dinheiro e tão pouca ambição para ganhar mais... — chorou o Manuel. 2. É só cunhas! Tão pouco mérito nessa tua nomeação, Álvaro! 3. Sei tão  pouco ... — pensou. 4. Há tão poucos alunos estudiosos... Tão pouca sede de aprender. Já «tampouco» é apenas uma palavra formada por aglutinação e trata-se de um advérbio com o sentido de «também não», «sequer», «muito menos».  Já «tampouco» é apenas uma pa...

Estada ou estadia?

Estada e estadia — uma batalha perdida?  | Foto de Unplash Há umas semanas, acabada de chegar a um hotel, diziam-me na recepção: «Boa estadia!». Foi aqui que surgiu a ideia de escrever, na Escrivaninha, no próximo 100 erros, sobre esse par confuso que é «estada» e «estadia». É certo que o erro está amplamente disseminado. Faça-se uma pesquisa no Google por férias e hotéis e percebe-se a confusão e a a praga das «estadias» usadas indiscriminadamente. Mas, como na Escrivaninha não acreditamos em batalhas perdidas e ainda temos esperança de que os nossos leitores comecem a generalizar a correcção, vamos a explicações. «Estada» é um substantivo feminino que, segundo o Dicionário Morais , significa: «ato de estar, ficar em algum lugar; assistência, permanência, detença.» Pode também designar um «andaime armado numa parede alta para acabar a sua construção», apesar de esta acepção nos parecer muito pouco usada. O sentido mais comum de «estada» é mesmo o primeiro. Para vos ajuda...

Escrever um bom ensaio literário

Fonte: Unsplash Já se percebeu que, por aqui, não subestimamos a escrita: a arte da palavra é difícil de domar sobretudo se tivermos em mãos a tarefa de escrever um ensaio literário. Escrever um bom ensaio (e há-os tão verborrágicos, tão adjectivados, cansados e longos como esta frase) pode ser desafiante. Por isso, hoje damos-vos alguns conselhos que podem ser úteis. Antes de mais, a questão que se impõe é: como saber se determinado tópico é ou não válido para tratar num ensaio? Escolher um problema, uma questão passível de ser argumentada — não um facto Um ensaio literário não se trata de simplesmente discorrer sobre o livro X ou Y, resumir a história e/ou dar a tua opinião sobre ela (como por vezes fazemos aqui, em freestyle, na Escrivaninha). Escrever um ensaio implica fazer uma pergunta específica ao texto e ver como ele nos responde. Trata-se de escolher uma questão passível de argumentar. Dizer, por exemplo, que Oliver Twist é a história de um órfão que viveu em meados do sécu...

Espoletando e despoletando granadas por essa língua fora

Granadas por essa língua fora Fonte: Pixabay Há uns dias ouvíamos  A beleza das pequenas coisas —  o podcast de Bernardo Mendonça no Expresso  —, desta vez com a Sara Barros Leitão. E, embora muito mais atentos ao conteúdo da entrevista do que à forma, não fomos capazes de não notar dois momentos que perpetuam uma imprecisão muito comum na língua portuguesa. Num primeiro momento, pergunta Bernardo Mendonça: «Mas houve algo que despoletou isso? Houve um gatilho para sentires essa urgência de ter voz e de ter mensagens a passar?» Mais adiante, diz Sara Barros Leitão, a respeito dos seus «medos e fantasmas»: «A partir do momento em que tu aceitas dar uma entrevista, como eu estou a fazer hoje, obviamente que eu saio daqui e penso: "Pronto, tenho medo do que é que isto vai despoletar ." Por exemplo, tenho medo do que é que se vai escrever, descontextualizando aquilo que eu digo (...)» Ora, «despoletar» é um verbo que, como nestes dois casos, é muitas vezes confundido com o ...

«Cilício» e «silício»

Hoje falamos-vos de duas palavrinhas homófonas — lêem-se exactamente da mesma forma, mas têm grafias e significados diferentes. Embora não muito usadas no nosso dia-a-dia, é importante sabermos distinguir estes termos que, quando ouvidos ou lidos em certos contextos muito específicos, podem, pelo som idêntico, gerar alguma confusão.  Referimo-nos aos termos cilício e silício . Vamos a explicações, munindo-nos do Dicionário Houaiss da Língua Portugues a.  Cilício com <c> vem do latim CILINICU e significa «uma túnica ou faixa de crina ou de um pano áspero e grosso» ou «um cinto ou cordão eriçado de cerdas ou correntes de ferro, cheio de pontas» usado como forma de penitência. Além disso, o cilício pode remeter para uma armação usada, em tempos, por soldados como protecção contra as armas de arremesso. Ademais, pode, em vez de designar a túnica de penitência que referimos, assumir o sentido figurado de «sacríficio e mortificação a que alguém se sujeita voluntariamen...

Preparar um discurso

Há quem tenha pavor a discursar. É o teu caso?  Foto: Unsplash Preparar um discurso é um verdadeiro suplício para muitas pessoas. Quer seja pela dificuldade em expressar certas ideias de forma clara ou por falta de confiança para falar em público (por maior ou menor que seja), muitos receiam uma apresentação oral na escola, na faculdade — as temidas defesas de tese — ou mesmo no emprego. Por isso, e esperando deixar a semente da oratória em muitos dos nossos leitores, no «Conversa Fiada» de hoje damos-vos algumas dicas sobre como preparar um bom discurso, bem estruturado, coerente, e que emane confiança e naturalidade, cativando a atenção dos ouvintes. A preparação do texto Em primeiro lugar é importante estudar de antemão e atempadamente o assunto sobre o qual se vai falar e, evidentemente, estruturar a apresentação. Depois de feita a devida investigação sobre o tema do discurso, e mesmo que já estejamos à vontade com a matéria de que vamos tratar, ter um qualquer suporte — texto ...

A dor de cabeça das percentagens

Nos jornais, na televisão, nos trabalhos académicos, em livros de não-ficção (e de ficção) e até no futebol, as percentagens são um elemento a que recorremos diariamente. E porquê? Porque apresentar uma determinada informação sob a forma de percentagem — isto é, sob a forma de uma parcela de 100 — não só a torna muito mais intuitiva para quem a interpreta, como isso nos facilita (muito!) a comparação de dados. Mas a verdade é que nem sempre sabemos formular percentagens com correcção. Pois é, em torno das percentagens há pelo menos uma norma ortotipográfica e uma regra linguística e da língua portuguesa que devemos cumprir escrupulosamente. A primeira é simples: existe sempre um espaço entre o(s) algarismo(s) e o símbolo de percentagem (%). Assim:  50 % é o correcto,  e não 50%. A segunda regra já é um pouco mais difícil de decorar, dado que passa por perceber qual o termo com que deve concordar a forma verbal que utilizamos na frase em questão.  Ora bem, comece...

Ciclo ou círculo vicioso?

Fonte: Unsplash Hoje falamos-vos sobre uma expressão que todos usamos, mas nem sempre da forma certa. Com certeza que já todos dissemos ou ouvimos as duas formulações: «ciclo vicioso» e «círculo vicioso». E sim, todos percebemos o que alguém quer dizer quando usa uma ou outra expressão — a semântica, e portanto, o entendimento entre os falantes estão garantidos mesmo que a integridade da língua esteja comprometida.  Contudo, para aqueles que prezam o rigor da linguagem, saibam que há apenas uma expressão correcta entre estas duas, já que apenas uma delas significa exactamente o que queremos expressar.  Sem mais delongas, a única formulação correcta é «círculo vicioso».  Ora, quando ouvimos esta expressão — seja, erradamente, com o termo «ciclo», seja com «círculo» —, sabemos que o falante deseja sempre referir-se a um padrão do qual não se consegue ou se afigura, pelo menos, difícil sair. Usa-se, portanto, esta expressão com uma conotação negativa. E é fácil perceber porq...

Pontuar diálogos: por onde começar?

A semana passada, no nosso último «Conversa fiada», demos-vos algumas  dicas para escrever um diálogo — essa tão importante estratégia para quem escreve ficção. Em fruto de dúvidas que tantas vezes nos assolam a todos (sim, também a nós), dedicamos a publicação de hoje a um tema relacionado com o diálogo: a pontuação no discurso directo. Ora, antes de mais, é importante deixar claro que a pontuação em diálogo não segue regras fixas (além das que se aplicam a todo o restante texto, claro) tratando-se, portanto, de um tema que não pode de modo nenhum ser tratado com purismos e sem pesar o estilo de quem escreve.  Dito isto, meus caros leitores, há alguns conselhos que podem ser úteis para, pelo menos, mitigar algumas das dúvidas mais avassaladoras de quem escreve (e, vá, revê) discurso directo e que em nada devem castrar a liberdade do autor. Vamos lá? 1) Antes de mais, note-se que o mais comum é que o discurso directo em Português se distinga do indirecto porque vem entre tra...

Dicas para escrever um diálogo

  Quem gosta de ler ou deseja escrever boas histórias sabe que há um elemento a que raras vezes podemos fugir e sem o qual nada do que lemos nos convence: o diálogo. Pois é, o objectivo do diálogo — do grego  διάλογος , que significa « por intermédio da palavra» — é não só servir o avançar do arco narrativo de qualquer história, mas também — e sobretudo — revelar as características dos intervenientes.  Os momentos de diálogo são, por isso, momentos de recuo na narrativa que servem para a catapultar para um determinado lugar de acção, dando-lhe o contexto necessário para esse avanço/recuo e semeando os pormenores que definem a forma como cada uma das personagens se comporta.  Mas escrever um bom diálogo não é fácil. Antes de mais porque implica que quem o escreva vista a pele das várias personagens que intervêm e saiba exatamente como é que cada uma reagiria a determinado estímulo. Eis algumas das dicas que, aqui na Escrivaninha, consideramos essenciais para quem apre...