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Quantos "se não" e "senão" cabem na língua?

O uso da conjunção "se" seguido de "não" assim como do substantivo "senão" é muitas vezes objeto de mal-entendidos. A semântica e a grafia desencontram-se, originando erros e significados que traem a intenção comunicativa do autor. Muitas vezes nos perguntam quando usar um e outro, qual o sentido e a grafia correspondente. Vejamos.   1) "Se não", como conjunção condicional, com o sentido hipotético, em que a concretização do acto descrito na segunda oração depende da realização da primeira, com o sentido de "no caso de não": ·      Se não comeres de forma saudável, o teu corpo ressentir-se-á. ·      Ficarás desidratado, se não beberes água. ·      Se não gostas da aletria, não a comas!   2) "Senão" com o sentido de consequência, podendo ser substituído pela expressão "caso contrário": ·      Estuda, senão chumbas. ·      Lê os  Lusíadas , senão ...

O particípio passado com valor adjetival

  A  palavra “passado” — não o passado que passou, mas o adjectivo — é muitas vezes erradamente utilizada.  A culpa do erro? Atribuimo-la à confusão com uma outra classe de palavra: o advérbio , que  não  varia em género (masculino e feminino) e número (singular e plural).  Por causa deste quipróquo, dizemos amiúde “passad o ”, mesmo quando deveríamos usar “passada”, “passadas” ou “passados”,  conforme a expressão a que o adjectivo diga respeito. E sta confusão acontece apenas quando se usa o adjectivo num contexto temporal, isto é, com o sentido de  determinado tempo volvido,  já que a ninguém ocorre usar sempre “passado” noutros contextos, como: " A camisa foi mal  passado ."  " Quero os bifes bem  passado , por favor!", " A tarde e a manhã foram bem  passado ."  Toda a gente diz, e bem: A camisa foi mal  passada .  Quero os bifes bem  passados , por favor!  A tarde e a manhã foram bem  pass...

Eat that doubt

Desenho de Fuinha Ele, ao sol, vermelho como um erro.   Eu a vê-lo; a digladiar-me com os sórdidos detalhes.   Nem a benevolência da luz influía afinação na certeza.   Amor,   como a  súbita  chuva de verão,  começa prende-te a forma esquiva; estaca em quieta complacência.   Dentro duma jarra fica   como o cúmplice  estoico do segredo.   És a decisão   de quem segue repetindo    eat  that                  doubt                     ante a luz propícia, contra a investida de uma condição.     Março, 2019     Nota : Eat that question é o título de uma música de Frank Zappa,  que inspirou o título do texto.   Elsa   Escrivaninha

O clube de vídeo da minha rua

Ainda se lembram dos clubes de vídeo?  Fonte: Unsplash Fazia um frio intenso na cidade de Bristol em fevereiro. Acreditava que um ano a viver no Reino Unido me teria preparado para as temperaturas baixas, mas as primeiras impressões ali contrariavam-no. Sentia-o nos ossos e na pele seca, ressentindo o frio. Era a primeira vez que visitava a cidade, que me transmitia uma estranha sensação familiar. Não era que me fizesse sentir em casa; mas parecia comunicar com algumas cidades portuguesas que conhecia, mas onde nunca tinha vivido. Talvez a relação que estabeleço entre Bristol e estas cidades a que me refiro seja inocente, demonstrando que não conheço realmente nenhuma delas. Ou talvez refletisse um sentimento de nostalgia e melancolia causado pelas saudades de casa, que já se começavam a fazer sentir naquela altura. Ainda assim, uma das ruas mais largas de Bristol fez-me por momentos sentir que estava na Avenida dos Aliados, no Porto. Também a Ponte de Clifton, embora muito dif...

Diálogos entre a prosa e a poesia — parte II

Fonte: Unsplash   Rotinas Prosa : Tive uma semana tão atarefada e intensa! Nem imaginas: aulas de step , idas à praia, piqueniques, viagens... Ufa! E o melhor? Nestas idas e voltas ficam a saber-se coisas! Sabias que o Jaime foi despedido da empresa onde trabalhava? E que a Patrícia se casou com o Eduardo, o coxo? Poesia : Não atribuas essas categorias redutoras às pessoas... E, por favor... saí agora do yoga , ainda me sinto a levitar. Tem dó de mim. Não me satures com banalidades. Prosa  ( pensando) : É por essas e por outras que ninguém a atura... Na perfumaria Poesia : Não sei qual deles levar... o perfume ou o creme de mãos? Prosa : Nem eu, cheiram todos tão bem... E a textura deste sérum ?  Poesia : E porque não levamos tudo? Prosa : As más línguas vão-nos chamar «sinestésicas». Poesia   (sedutora) : Ora, se os inebriarmos não nos chamarão nada... Pratos favo...

Velhos, lares e eufemismos

    Uma velha bonita. Fonte: Unsplash   «Lares», esses sítios para onde vão, para onde são enviados os idosos, os séniores — ah... o eufemismo na palavra... e que palavra... com veneno sibilante da serpente: a linguagem. Não gosto da ideia de lar e esta implicância começa na hipocrisia do nome. Para ir para um lar é necessário sair-se do seu. Os lares podem ser (são certamente) importantes para muita gente, mas posso não gostar deles? Para mim, o lar é um sítio asséptico e descaracterizado, em que o que devia ser amor e mimo se substitui por normas sensatas; onde prepondera a atitude temperada e as atividades têm sempre um odioso propósito qualquer... Julgo que o lar infantiliza os velhos ao «obrigá-los» a fazer ginástica ou uma coisa chamada «terapia do riso». Destitui-os dos vícios e das manias que a idade implantou, endureceu neles, ao seguir a máxima de que o que é bom para todos será bom para cada um deles.  Eu, que imagino os velhos como pessoas cravadas pelo t...

Janelas

Janelas indiscretas entretêm. Fonte: Unsplash No caminho do trabalho para casa, tinha por hábito perder-se entre os prédios, fascinado pelas janelas que, do outro lado, revelavam salas com luzes acesas. Para trás, deixava um dia de trabalho e olhava as janelas da mesma forma que estava habituado a ver outras pessoas olharem as estrelas. Daquela perspetiva, ao longe, eram realmente estrelas que lhe pareciam. Fontes de luz numa noite já cerrada, embora as horas acusassem apenas umas nove e meia da noite. Não conseguia ver o que acontecia do outro lado. Eram as janelas dos andares mais altos que o fascinavam. Não era o voyeurismo que o impelia a deter-se daquela forma. Era a realidade imaginada e as possibilidades que poderiam estar por trás delas que o cativavam, como se fosse um exercício ao qual se dedicava para libertar o seu potencial criativo. Ingenuamente, as imagens que lhe passavam pela cabeça das vidas que aqueles apartamentos poderiam guardar traziam-lhe sempre um gosto daquil...

Detesto telefonemas

Falar ao telefone é, para alguns, um suplício. Fonte: Unplash Acabo de virar a página e o telefone toca. Detesto telefonemas. Sobretudo os que não sou eu a fazer e mais ainda os que me interrompem alguma tarefa prazerosa. Quem é que veio instaurar esta mania-hábito de estarmos em constante contacto uns com os outros, a todos os momentos do dia quando, se nos pusermos a relatar a nossa vida com esse tipo de regularidade, acabamos por ter tão pouco para dizer? Nos dias mais preenchidos (cheios de aplicações, chats e malditos aparelhos fervilhantes) ataca-me uma daquelas dores que insistem em testar a estrutura das minhas têmporas. São constantes ding-dings, vibrações, vozes baixinhas, leituras, estímulos visuais, correctores automáticos hitlerianos e tic-tics de teclas que só não choramingam por batermos tanto nelas porque não conseguem. E uma pessoa não pode ao menos detestar telefonemas? Detesto telefonemas. Sobretudo os de números que desconheço  (mesmo sabendo que posso perder ...

Diálogos entre a prosa e a poesia — parte I

Se a prosa e a poesia fossem amigas, o que diriam uma à outra?  Provérbios preferidos  Prosa : «Grão a grão enche a galinha o papo».  Poesia : «Para bom entendedor, meia palavra basta». Férias   Prosa : Vou para Tormes. Lá sinto-me bem. Poesia : Vou para Pasárgada. Lá sinto-me bem também.  Serões de família  Prosa : A minha família? Numerosa e faladora, como eu! Enchemos a casa toda e à noite contamos histórias. Fazemos grandes jantaradas, dialogamos muito!  Poesia : Quase todos discretos... Gostamos da noite e de resolver charadas... Ah e de gatos e corvos falantes.  Aniversários  Prosa : Celebro sempre com uma festa de arromba e convido toda a gente — sobretudo muitas personagens secundárias! Protagonistas? Não! Nos meus anos, a protagonista sou eu! Sim sim e não me importa que me acusem de ser meta-literatura! ( deitando a língua de fora ).  Poesia : Não gosto de fazer anos... É  sempre um dia nostálgico... No...

Quarto sem vista

Pela porta de madeira escura, à direita, encostada à parede branca, a cama já ocupa o meu olho todo. É alta, tem 200 x 180 cm, um colchão gordo e sobre ele está esticado um edredão de penas azul-escuro, pesado como os que vivem nos quartos de hotel, cujos limites estão todos a dois centímetros do chão, medidos a olho de arquitecto. Não vejo os pés deste animal de sono, o que é sinal de que não tão cedo correrá na minha direcção e de que tenho tempo para bisbilhotices. Os lençóis, que só vejo quando levanto timidamente o edredão, estão repuxados como o cabelo de uma bailarina: tudo indica que passam por aquele tratamento de goma dos alojamentos turísticos para que nada saia do lugar e as pessoas sejam expelidas da cama antes do meio dia. Sobre a cama, quatro almofadas gordíssimas: duas invisíveis, debaixo da escuridão da coberta, outras duas de um azul-escuro-esverdeado, com uns apontamentos em linha recta pouco óbvios no canto superior direito de cada uma. Não há aqui simetria, mas há ...

Conforme os pássaros

Unsplash || Umut YILMAN Recordas-te de quando nos sentávamos junto ao rio, a ver os pássaros? Estive lá hoje, no mesmo banco onde nos costumávamos sentar. Era a nossa rotina em manhãs de primavera. Era o início de dia perfeito, antes das alergias me tocarem a face e de sermos obrigados a abandonar o posto. Trocávamos e partilhávamos a vida como era costume, enquanto os pássaros nos sobrevoavam as cabeças, desafiando-nos sem que déssemos conta. Um dia, apercebeste-te do desafio e propuseste-mo. Na altura, não o vi como uma competição e jamais como uma forma de me apropriar de algo que não tinha o direito de conquistar. Na verdade, era uma competição que contava claramente com a confiança que tínhamos no bom fundo e honestidade um do outro — o que, embora saudável, não é o tipo de actividade que alguém se proponha a fazer com qualquer pessoa. Sugeriste-me que escolhesse um pássaro. Tu escolherias outro. A ideia era perceber quem conseguiria seguir o seu rasto durante mais tempo, ao mant...