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Quantos "se não" e "senão" cabem na língua?



O uso da conjunção "se" seguido de "não" assim como do substantivo "senão" é muitas vezes objeto de mal-entendidos. A semântica e a grafia desencontram-se, originando erros e significados que traem a intenção comunicativa do autor. Muitas vezes nos perguntam quando usar um e outro, qual o sentido e a grafia correspondente. Vejamos.

 

1) "Se não", como conjunção condicional, com o sentido hipotético, em que a concretização do acto descrito na segunda oração depende da realização da primeira, com o sentido de "no caso de não":

·      Se não comeres de forma saudável, o teu corpo ressentir-se-á.

·      Ficarás desidratado, se não beberes água.

·      Se não gostas da aletria, não a comas!

 

2) "Senão" com o sentido de consequência, podendo ser substituído pela expressão "caso contrário":

·      Estuda, senão chumbas.

·      Lê os Lusíadas, senão nunca conhecerás o grande épico que foi Camões.

·      Exercita-te, senão perdes músculo.

 

3) "Senão" como substantivo, com o sentido de "contrapartida", "mácula", "defeito":

·      Essa casa é óptima, só tem um senão: apenas tem uma casa de banho.

·      O único senão do restaurante? É demasiado caro.

·      Não há bela sem senão.

 

4) "Senão" com o sentido de "a não ser":

·      Aquele homem não tem senão defeitos...

·      O livro que acabei de ler não perpetua senão clichés.


5) "Senão" com valor adversativo, equivalente a "mas sim":

·     Ela não quer conversar, senão ouvir música.

·     Não quero descansar, senão trabalhar.


Escrivaninha

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