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Mensagens

A criança fora da infância (II)

     Muito hesitante, preparou-se e vestiu-se com receio de que ninguém a reconhecesse e receosa das repercussões seguintes que aquela pergunta pudesse, ainda, ter no seu corpo. Antes do pequeno-almoço, a mãe da menina beijou-a e olhou bem para o seu rosto, enquanto lhe fazia uma festa carinhosa. O pai levou-a, como sempre, até à escola — entre sorrisos e algumas canções que sempre trauteava. Tudo permanecia igual e feliz. Só ela se sentia diferente e nunca antes tão só num duelo inglório com aquele que a todos pareceria um inimigo risível: uma pergunta. Na rua, durante o percurso até à escola, percebeu que o céu, as coisas e as pessoas ardiam nos seus olhos e o seu perfil delineava-se com contornos proeminentes. Pontualmente, o seu corpo tremia, como se alguma coisa de dentro dela quisesse sair mas tivesse de lá permanecer. Sentia que todas as pessoas a olhavam como muita atenção, detendo-se demasiado tempo nela. A cada olhar tinha a obsessiva sensação de que todos podi...

A criança fora da infância (I)

A criança começou a sair da infância depois de uma aula. O professor tinha feito um aparte na matéria, dizendo: «Todos nós seríamos, obviamente, capazes de dar a vida pelos nossos pais». Depois desta afirmação, « a criança não pôde mais coincidir plenamente com a infância » .  Ainda por cima, os outros colegas concordaram prontamente. Só ela ficara concreta na postura, perplexa durante o recreio, esquecida do lanche e de brincar, longe desse estado de distracção em que nada parece premeditado: a infância. E tudo por causa da afirmação do professor, latejando, ainda, na sua cabeça, durante o recreio.  Que ideia tão estranha: nunca antes se havia debatido com uma pergunta tão grave. Imaginava-se tentando salvar os pais de um eventual desastre, dando por eles a vida — ao mesmo tempo que duvidava fortemente da sua capacidade de suportar dor. E, no entanto, não deixava de considerar que deveria estar apta a passar por uma qualquer provação — afinal, fora o professor quem o dissera....

A omissão da consoante -s antes do pronome -nos (e de mais nenhum!)

No nosso dia-a-dia não falamos de termos como «conjugação pronominal» ou «conjugação pronominal reflexa», mas a verdade é que todos nós as usamos diariamente. A «conjugação pronominal» é o conjunto de formas flexionadas de um determinado verbo em associação aos pronomes pessoais átonos (também chamados clíticos): -me ,  -te , -lhe , -o , -a , -nos , -vos , -lhes , -os , -as , -se.  Vejamos alguns exemplos: 1) «Ele tinha um carro antigo. O meu pai comprou -o. »   -o é complemento directo (substitui «um carro antigo») 2) «Ele vendeu -nos a casa por tão pouco.» -nos é complemento indirecto (a quem se vendeu) 3) «A Maria comprou uns lindos brincos e ofereceu -mos. » -mos é complemento directo (substitui «uns lindos brincos») e indirecto (a quem foram oferecidos). 4) «Pedimos- vos que ficassem em casa...»  -vos é complemento indirecto (a quem se pediu). Quando o complemento directo ou indirecto é a mesma pessoa/objecto que funciona como sujeito da frase — veja-s...

Trade Mark, de António M. Pires Cabral, ou Quando as coisas revelam

António M. Pires Cabral é um poeta transmontano premiado, o autor dos poemas de «marca registada» de que hoje vos falo.  Trade Mark  é o primeiro livro que dele leio, mas não será decerto a sua melhor obra de poesia nem a mais sofisticada. Não carrega de todo a coroa do hermetismo, mas denota bom gosto e discrição e tem a vantagem de contar histórias. Afinal, esta é uma poesia autobiográfica, o que consola a faceta bisbilhoteira que todos temos (negá-la é negar uma boa parte de Shakespeare). Outro dos motivos que me faz considerá-lo um bom livro é o facto de me levar a formular uma questão mais ampla. Que temas estão ou devem estar — se é que os há — vedados à poesia? Deve o género poético restringir-se a musculadas temáticas como o Amor e a Morte, como se as confessasse? Ou pode o lirismo debruçar-se sobre calos, asma nocturna, azia e pastilhas que a atenuem, ou mesmo latas de fermento Royal ? Se há dois temas à volta dos quais se criam variações mais ou menos circenses, talv...

Piscar o olho à denúncia também é desiderato da literatura

  Graças a várias sortes que me calharam, nunca tive contacto com nenhum caso de violência doméstica. Pelo menos não o sei e só isso talvez acuse o verdadeiro problema desta questão: o silêncio de quem a vive nesses cenários e a ignorância de quem, tantas vezes sem dar por isso, assiste. Mas a verdade é mesmo essa: salvo uns vizinhos mais barulhentos cuja casa abria frequentemente as portas ao álcool — tinha eu 18 anos — nunca me vi diante de tamanha tormenta.  O que eu sei é que, mesmo nunca tendo vivido nada semelhante, desde cedo subscrevi aquela opinião francamente imatura de que «quem apanha, apanha porque quer» — e não fujo aos termos menos cuidadosos porque era mesmo assim que eu pensava. Julgava, com boa intenção mas sem um pingo de empatia, que «não há nada que justifique aturar um companheiro violento», com ou sem bebida.  Bem, não que eu acredite que algo justifique a postura de quem maltrata quem quer que seja. Não. Fique isso bem claro. Mas o certo é que hoje...

Três mulheres, três escritoras (lembradas por Stefan Bollmann)

Com base no livro Mulheres que Escrevem Vivem Perigosamente , de Stefan Bollmann, falamos-vos de três mulheres escritoras que, quer pela audácia, quer pelo talento, marcaram a História. Hildegarda Binden (1098-1179) e uma porta inusitada para a escrita Hildegarda Binden A proibição de São Paulo de que as mulheres escrevessem ou pregassem impediria a monja Hildegarda Binden (1098-1179) de se dedicar à sua vocação. Porém, anos mais tarde, depo is de Hildegarda  atravessar um período de doença, o Papa Eugénio III vê na sua “vocação de profetisa” uma justificação suficiente para a autorizar a, finalmente, registar as suas visões, deixando-as para a posteridade. Nos manuscritos, a monja descreve a doença como uma espécie de castigo divino infligido por não seguir aquela que considerava ser a sua missão: dar voz a Deus através da escrita. Hildegarda já tinha, à época, um revisor — os textos eram relidos e corrigidos por um escriba que melhorava, entre outros aspetos, a gramática (la...

Resiliência de poetas

Olhos postos nos ladrilhos nojentos da cozinha, a bater calcanhares furiosos para a frente e para trás como se quisesse assinar um sulco e afundar-me na divisão. Transpiro para dentro mas sinto-o como se me escorregasse um pingo de suor lento do pescoço para as clavículas, e desses contornos para os limites do peito. Marcho sem parar, por mais cansada que me sinta, e começo a querer abrir feridas nos cantinhos das unhas dos polegares, de tanto que os esgaço com as dos anelares nervosos. Abre-se a porta e eu paro, sentindo o meu couro cabeludo quente – ao longe, ouço a mãe dizer-me um displicente quem tanto transpira, até da cabeça.  Já sei que me espera um desacato qualquer. — Doutor, não se atire já a mim! Eu juro que tenho feito de tudo... – digo-o com o ar pálido de quem diz a verdade mas teme que ela pareça mentira.  Tenho a impressão de que as minhas unhas já sangram, de que o cabelo se colou à minha cara e de que, entretanto, esculpi esporões calcâneos que em breve abri...