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Resiliência de poetas


Ficção de Marta Cruz, na Escrivaninha

Olhos postos nos ladrilhos nojentos da cozinha, a bater calcanhares furiosos para a frente e para trás como se quisesse assinar um sulco e afundar-me na divisão. Transpiro para dentro mas sinto-o como se me escorregasse um pingo de suor lento do pescoço para as clavículas, e desses contornos para os limites do peito. Marcho sem parar, por mais cansada que me sinta, e começo a querer abrir feridas nos cantinhos das unhas dos polegares, de tanto que os esgaço com as dos anelares nervosos.

Abre-se a porta e eu paro, sentindo o meu couro cabeludo quente – ao longe, ouço a mãe dizer-me um displicente quem tanto transpira, até da cabeça. Já sei que me espera um desacato qualquer.

— Doutor, não se atire já a mim! Eu juro que tenho feito de tudo... – digo-o com o ar pálido de quem diz a verdade mas teme que ela pareça mentira. 

Tenho a impressão de que as minhas unhas já sangram, de que o cabelo se colou à minha cara e de que, entretanto, esculpi esporões calcâneos que em breve abrirão caminho pela pele grossa dos meus pés. 

— Esse nervosismo não lhe fica bem... – diz o velho, arredondando os limites da barba pelas beirinhas do queixo, lambendo-a com o indicador e o polegar da mão esquerda, inchada de fazer pouco. — Contudo, explica o seu refluxo, disso não há dúvida.

— Mas eu juro que tenho feito o crochê como a avó me ensinou! Tenho até desfeito os trabalhos todos os dias antes de me deitar para os refazer na manhã seguinte, tal como o Doutor receitou. Não sei mais que faça!

Eu já nem olho para ele, por muito franca que lhe seja. Sei que o exame há-de ter acusado algum vestígio impróprio, mas só me denuncio a troco de dinheiro. Por menos do que isso, nunca. 

— Tenha calma, que isto dos trabalhos com malhas não é para aqui chamado! 

E eu na fúria de bater o calcanhar no chão.

— Você tem uns pedacitos de papel no estômago...

E eu toda vontade de não falar mais no assunto.

— Não tenha vergonha. Resolveremos... 

E eu numa erupção de má disposição.

Quando acordo, estou inchada mas não tenho dores. Na almofada à minha esquerda já não há ninguém e não me importo com isso: as folhas colam-se em todo o espaço que eu não ocupo mesmo com o corpo espalmado em estrela nos lençóis. Nem sei como não me abrem fendas durante a noite com tanta cólera de papel amarfanhado. 

Pelos estores mal fechados entra uma luz muito amarela e já sei que sou capaz de ter dormido demais. Não sou mulher para estar horas sem fim à secretária e deitada entendo-me melhor. Mas isto de teimar com as palavras quando se devia estar no crochê (ou em qualquer outra coisa) é uma impaciência com tentáculos. E foi preciso pensar nisso para o último verso se me tornar óbvio como tomar duche: Amanhecer em almofadas amareladas de suor para não morrer.

Marta Cruz

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