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Mensagens

Cores de Natal, maçãs verdes e kitkats

Se há coisa de que gosto no Natal — e que tendo a dar como certa nessa época do ano — são as cores.  As cores persistem na minha vida desde sempre. As das lombadas dos livros meticulosamente encaixados nas estantes da minha infância, as das folhagens que cobriam o quintal, as das tintas com que, cedo, a minha mãe consentiu que pintasse o cabelo, e as das luzes que, no Natal, iluminavam a casa.  Como toda a gente, várias vezes julguei que me faltava muita coisa — é assim quando se é jovem e não sabe o que se tem. Mas cores, essas sempre as tive.  Desde os meus dez anos que o Natal foi passado um ano em casa, no conforto da família, e um ano numa qualquer cidade do mundo a que os meus pais me quiseram apresentar. Primeiro Londres, depois Madrid, Paris, e até Marraquexe. Em 2012, a escolha recaiu sobre Roma, porque à data eu vivia mergulhada em sebentas de Cultura Romana na Faculdade de Letras e estava certa de que, ali, perceberia tudo quanto não sabia ler nas entrelinhas....

Como falam os amargurados

— Bom, de facto só se estraga uma mesa...  — Ai, por favor fala baixo! — Se julgas que vou passar a noite calado só para não teres de me ouvir muito te enganas, ó! — Ah, imagino. Mas é um dia especial, João. Não custa nada ter calma... — Estou mais do que calmo. Só dispensava a má companhia. — Nem sei onde achavas que te iam sentar.  — Antes só que mal acompanhado! — Deixa estar que nem que me viesses pintado de ouro. — Ah, de ouro talvez, não é? — Enfim... Se não te comportas, comporto-me eu. A nós ninguém nos estragou a cerimónia. — Ah, não, pois não. De facto, nessa cerimónia, quem estava mal era só eu.  — Claro, já faltava… — É preciso ter lata! — Lata para quê? Pela decência de não te dizer isso na cara? Ou por te ter dito muitas outras coisas de que não gostaste? — E depois sou eu quem não se comporta. — Ah, sim, e eu hei-de ficar calada enquanto tu te sais com gracinhas tolas. Com franqueza! — Responde, responde. Que não te fique nada por dizer, mulher. Assim a noi...

Pontuar diálogos: por onde começar?

A semana passada, no nosso último «Conversa fiada», demos-vos algumas  dicas para escrever um diálogo — essa tão importante estratégia para quem escreve ficção. Em fruto de dúvidas que tantas vezes nos assolam a todos (sim, também a nós), dedicamos a publicação de hoje a um tema relacionado com o diálogo: a pontuação no discurso directo. Ora, antes de mais, é importante deixar claro que a pontuação em diálogo não segue regras fixas (além das que se aplicam a todo o restante texto, claro) tratando-se, portanto, de um tema que não pode de modo nenhum ser tratado com purismos e sem pesar o estilo de quem escreve.  Dito isto, meus caros leitores, há alguns conselhos que podem ser úteis para, pelo menos, mitigar algumas das dúvidas mais avassaladoras de quem escreve (e, vá, revê) discurso directo e que em nada devem castrar a liberdade do autor. Vamos lá? 1) Antes de mais, note-se que o mais comum é que o discurso directo em Português se distinga do indirecto porque vem entre tra...

Dicas para escrever um diálogo

  Quem gosta de ler ou deseja escrever boas histórias sabe que há um elemento a que raras vezes podemos fugir e sem o qual nada do que lemos nos convence: o diálogo. Pois é, o objectivo do diálogo — do grego  διάλογος , que significa « por intermédio da palavra» — é não só servir o avançar do arco narrativo de qualquer história, mas também — e sobretudo — revelar as características dos intervenientes.  Os momentos de diálogo são, por isso, momentos de recuo na narrativa que servem para a catapultar para um determinado lugar de acção, dando-lhe o contexto necessário para esse avanço/recuo e semeando os pormenores que definem a forma como cada uma das personagens se comporta.  Mas escrever um bom diálogo não é fácil. Antes de mais porque implica que quem o escreva vista a pele das várias personagens que intervêm e saiba exatamente como é que cada uma reagiria a determinado estímulo. Eis algumas das dicas que, aqui na Escrivaninha, consideramos essenciais para quem apre...

A criança fora da infância (II)

     Muito hesitante, preparou-se e vestiu-se com receio de que ninguém a reconhecesse e receosa das repercussões seguintes que aquela pergunta pudesse, ainda, ter no seu corpo. Antes do pequeno-almoço, a mãe da menina beijou-a e olhou bem para o seu rosto, enquanto lhe fazia uma festa carinhosa. O pai levou-a, como sempre, até à escola — entre sorrisos e algumas canções que sempre trauteava. Tudo permanecia igual e feliz. Só ela se sentia diferente e nunca antes tão só num duelo inglório com aquele que a todos pareceria um inimigo risível: uma pergunta. Na rua, durante o percurso até à escola, percebeu que o céu, as coisas e as pessoas ardiam nos seus olhos e o seu perfil delineava-se com contornos proeminentes. Pontualmente, o seu corpo tremia, como se alguma coisa de dentro dela quisesse sair mas tivesse de lá permanecer. Sentia que todas as pessoas a olhavam como muita atenção, detendo-se demasiado tempo nela. A cada olhar tinha a obsessiva sensação de que todos podi...

A criança fora da infância (I)

A criança começou a sair da infância depois de uma aula. O professor tinha feito um aparte na matéria, dizendo: «Todos nós seríamos, obviamente, capazes de dar a vida pelos nossos pais». Depois desta afirmação, « a criança não pôde mais coincidir plenamente com a infância » .  Ainda por cima, os outros colegas concordaram prontamente. Só ela ficara concreta na postura, perplexa durante o recreio, esquecida do lanche e de brincar, longe desse estado de distracção em que nada parece premeditado: a infância. E tudo por causa da afirmação do professor, latejando, ainda, na sua cabeça, durante o recreio.  Que ideia tão estranha: nunca antes se havia debatido com uma pergunta tão grave. Imaginava-se tentando salvar os pais de um eventual desastre, dando por eles a vida — ao mesmo tempo que duvidava fortemente da sua capacidade de suportar dor. E, no entanto, não deixava de considerar que deveria estar apta a passar por uma qualquer provação — afinal, fora o professor quem o dissera....

A omissão da consoante -s antes do pronome -nos (e de mais nenhum!)

No nosso dia-a-dia não falamos de termos como «conjugação pronominal» ou «conjugação pronominal reflexa», mas a verdade é que todos nós as usamos diariamente. A «conjugação pronominal» é o conjunto de formas flexionadas de um determinado verbo em associação aos pronomes pessoais átonos (também chamados clíticos): -me ,  -te , -lhe , -o , -a , -nos , -vos , -lhes , -os , -as , -se.  Vejamos alguns exemplos: 1) «Ele tinha um carro antigo. O meu pai comprou -o. »   -o é complemento directo (substitui «um carro antigo») 2) «Ele vendeu -nos a casa por tão pouco.» -nos é complemento indirecto (a quem se vendeu) 3) «A Maria comprou uns lindos brincos e ofereceu -mos. » -mos é complemento directo (substitui «uns lindos brincos») e indirecto (a quem foram oferecidos). 4) «Pedimos- vos que ficassem em casa...»  -vos é complemento indirecto (a quem se pediu). Quando o complemento directo ou indirecto é a mesma pessoa/objecto que funciona como sujeito da frase — veja-s...