Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Londres. Paragem de autocarros. Noite.

Anoitecia cedo em Londres no mês de Janeiro. Tinha vagueado pelas ruas do centro da capital, em redor de  Piccaddilly   Circus , depois de um dia de trabalho ,  e preparava-me para voltar a casa. Os cartazes com publicidades coloridas  ofereciam -me a luz necessária para me refugiar na leitura, enquanto esperava o autocarro que me levaria de regresso ao local que me concedia o conforto de lar  —  ainda que provisório. Nas minhas mãos, a vida triste de Esther  Greenwood revelava-se, ao mesmo tempo que trazia reflexos da vida da autora. Era uma tristeza que não partilhava, mas pela qual inevitavelmente sentia  algum tipo de identificação . Algumas passagens remetiam-me à própria solidão que  eu  sentia  —  e que se tornaria maior com o ano ao qual eu tinha acabado de dar as boas-vindas. Foi nesse compasso de espera, embrenhado pelas palavras de  Sylvia   Plath , com a forma da voz de Esther, que  uma outra voz me t...

Trás-os-Montes: o rural e o reverso

Obra de Nadir Afonso, pintor natural de Chaves. Que região tão contida no perímetro de um preconceito, bem como o povo (de buço, sem instrução) que, dizem alguns, fala a cantar e diz, dizemos, as sílabas todas: Trás-os-Montes. Sabemos já do nevoeiro no âmago do Inverno, das estradas torneadas à volta da montanha no caminho para as aldeias; das estalactites de gelo ao longo do caminho; de uma ou outra raposa, às vezes, um javali, se estivermos atentos; dos tons de castanho e de verde da paisagem. Esse, um dos lados de Trás-os-Montes. Os meus avós são a metonímia dessa ruralidade: os tempos de muito trabalho (lembro o epíteto de «bichos da palha», ganho pelo avô, Alípio, pelo seu cunhado, Arnaldo) depois da célere manhã de ceifa. Com eles, a minha avó Zelinda e a sua irmã Dora (nomes que se perderão), com pouco receio dos guardas franquistas, se completa o grupo dos protagonistas de histórias do trelo: o contrabando . A agricultura, o acomodar dos animais. As vacas, nomeá-las, vigiá-las ...

O Enredo Conjugal, de J. Eugenides

No momento em que escrevia este texto, acabava de pousar o Kindle junto a uma pilha de livros que há anos habitam a mesa de cabeceira da minha adolescência. Esse contraste, penso, representa não só duas eras diferentes, mas também duas Martas diferentes: a Marta que volta e meia consegue ser menos angustiada e mais ávida e, em viagem, rende-se à biblioteca do Kindle porque nela pode arrumar tantos livros quantos quiser; e a Marta que não dispensa a biblioteca física da sua casa, que leva anos sem se lembrar dos livros que tem (e, por vezes, de onde estão) e que só peca por não poder carregar todo o peso das estantes nas mochilas com que anda.  Dava por terminado  O Enredo Conjugal (2011) — The Mariage Plot — , de Jeffrey Eugenides, que encostara levemente junto a Emma , de Jane Austen, o que não deixa de ser uma coincidência menos engraçada do que a sensação de que, como todas as coincidências, esta também estava quase destinada.  Bom, eu explico.  O Enredo Con...

Ciclo ou círculo vicioso?

Fonte: Unsplash Hoje falamos-vos sobre uma expressão que todos usamos, mas nem sempre da forma certa. Com certeza que já todos dissemos ou ouvimos as duas formulações: «ciclo vicioso» e «círculo vicioso». E sim, todos percebemos o que alguém quer dizer quando usa uma ou outra expressão — a semântica, e portanto, o entendimento entre os falantes estão garantidos mesmo que a integridade da língua esteja comprometida.  Contudo, para aqueles que prezam o rigor da linguagem, saibam que há apenas uma expressão correcta entre estas duas, já que apenas uma delas significa exactamente o que queremos expressar.  Sem mais delongas, a única formulação correcta é «círculo vicioso».  Ora, quando ouvimos esta expressão — seja, erradamente, com o termo «ciclo», seja com «círculo» —, sabemos que o falante deseja sempre referir-se a um padrão do qual não se consegue ou se afigura, pelo menos, difícil sair. Usa-se, portanto, esta expressão com uma conotação negativa. E é fácil perceber porq...

Cores de Natal, maçãs verdes e kitkats

Se há coisa de que gosto no Natal — e que tendo a dar como certa nessa época do ano — são as cores.  As cores persistem na minha vida desde sempre. As das lombadas dos livros meticulosamente encaixados nas estantes da minha infância, as das folhagens que cobriam o quintal, as das tintas com que, cedo, a minha mãe consentiu que pintasse o cabelo, e as das luzes que, no Natal, iluminavam a casa.  Como toda a gente, várias vezes julguei que me faltava muita coisa — é assim quando se é jovem e não sabe o que se tem. Mas cores, essas sempre as tive.  Desde os meus dez anos que o Natal foi passado um ano em casa, no conforto da família, e um ano numa qualquer cidade do mundo a que os meus pais me quiseram apresentar. Primeiro Londres, depois Madrid, Paris, e até Marraquexe. Em 2012, a escolha recaiu sobre Roma, porque à data eu vivia mergulhada em sebentas de Cultura Romana na Faculdade de Letras e estava certa de que, ali, perceberia tudo quanto não sabia ler nas entrelinhas....

Como falam os amargurados

— Bom, de facto só se estraga uma mesa...  — Ai, por favor fala baixo! — Se julgas que vou passar a noite calado só para não teres de me ouvir muito te enganas, ó! — Ah, imagino. Mas é um dia especial, João. Não custa nada ter calma... — Estou mais do que calmo. Só dispensava a má companhia. — Nem sei onde achavas que te iam sentar.  — Antes só que mal acompanhado! — Deixa estar que nem que me viesses pintado de ouro. — Ah, de ouro talvez, não é? — Enfim... Se não te comportas, comporto-me eu. A nós ninguém nos estragou a cerimónia. — Ah, não, pois não. De facto, nessa cerimónia, quem estava mal era só eu.  — Claro, já faltava… — É preciso ter lata! — Lata para quê? Pela decência de não te dizer isso na cara? Ou por te ter dito muitas outras coisas de que não gostaste? — E depois sou eu quem não se comporta. — Ah, sim, e eu hei-de ficar calada enquanto tu te sais com gracinhas tolas. Com franqueza! — Responde, responde. Que não te fique nada por dizer, mulher. Assim a noi...

Pontuar diálogos: por onde começar?

A semana passada, no nosso último «Conversa fiada», demos-vos algumas  dicas para escrever um diálogo — essa tão importante estratégia para quem escreve ficção. Em fruto de dúvidas que tantas vezes nos assolam a todos (sim, também a nós), dedicamos a publicação de hoje a um tema relacionado com o diálogo: a pontuação no discurso directo. Ora, antes de mais, é importante deixar claro que a pontuação em diálogo não segue regras fixas (além das que se aplicam a todo o restante texto, claro) tratando-se, portanto, de um tema que não pode de modo nenhum ser tratado com purismos e sem pesar o estilo de quem escreve.  Dito isto, meus caros leitores, há alguns conselhos que podem ser úteis para, pelo menos, mitigar algumas das dúvidas mais avassaladoras de quem escreve (e, vá, revê) discurso directo e que em nada devem castrar a liberdade do autor. Vamos lá? 1) Antes de mais, note-se que o mais comum é que o discurso directo em Português se distinga do indirecto porque vem entre tra...