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Mensagens

Sete de uma vez, do telhado para o chão.

A noite passada fui surpreendida com sete chamadas não atendidas. E eu, que sou muito mais atenta às pessoas do que ao telemóvel, devo admitir que o número de tentativas de contacto — ainda por cima ímpar — me deixou momentaneamente sem ar.  Não passava de uma brincadeira terna que me enterneceu, e repare-se que não pretendo atribuir responsabilidade a mais ninguém além de mim: eu sou a única responsável pelo sufoco. Eu que fui automaticamente catapultada para um lugar de culpa, para um fosso que escavei todas as vezes que procurei ter uma certa independência e a confundi com aquela infantil necessidade de ser desatenta.  Há uns anos o meu pai caiu do telhado. Sim, do telhado. Ele talvez já tivesse uns 67 anos e, esquecendo o perigo a que todos estamos sujeitos se cairmos de um telhado, é provável que ele se tenha rido bem mais do que eu que, nos meus aéreos 24 anos, não lhe atendi o telemóvel das duas vezes em que me ligou porque, à data, insistia em julgar que o rodopio de L...

Escrever, memórias de um ofício, de Stephen King

Capa de Escrever, Editora Bertrand Stephen King, nascido a 1947 em Portland, Maine, nome maior do terror na ficção.  Sobre as suas obras, numa entrevista a Charlie Rose, dizia Harold Bloom não serem verdadeira literatura — a par das obras de J. K. Rowling, da colecção Harry Potter . No mesmo programa, noutro episódio, dois outros professores de literatura contrariavam o estudioso, dizendo que o autor do Cânone Ocidental era snob , pois apesar de os livros destes autores não se integrarem na mais erudita literatura, eram histórias verosímeis, cativantes e bem escritas. Polémicas à parte, a verdade é que até aqui eu não lera nenhum livro de S. King. E, talvez devido à curiosidade que nos impele a indagar o ambiente à volta da escrita, as rotinas de um escritor, os motivos da escrita, comecei por Escrever . Nele, com sensibilidade e humor, S. King conta-nos o seu percurso de vida e de escrita : desde a persistente inflamação de ouvidos que o perseguia em miúdo, passando pelas cartas ...

A dor de cabeça das percentagens

Nos jornais, na televisão, nos trabalhos académicos, em livros de não-ficção (e de ficção) e até no futebol, as percentagens são um elemento a que recorremos diariamente. E porquê? Porque apresentar uma determinada informação sob a forma de percentagem — isto é, sob a forma de uma parcela de 100 — não só a torna muito mais intuitiva para quem a interpreta, como isso nos facilita (muito!) a comparação de dados. Mas a verdade é que nem sempre sabemos formular percentagens com correcção. Pois é, em torno das percentagens há pelo menos uma norma ortotipográfica e uma regra linguística e da língua portuguesa que devemos cumprir escrupulosamente. A primeira é simples: existe sempre um espaço entre o(s) algarismo(s) e o símbolo de percentagem (%). Assim:  50 % é o correcto,  e não 50%. A segunda regra já é um pouco mais difícil de decorar, dado que passa por perceber qual o termo com que deve concordar a forma verbal que utilizamos na frase em questão.  Ora bem, comece...

Londres. Paragem de autocarros. Noite.

Anoitecia cedo em Londres no mês de Janeiro. Tinha vagueado pelas ruas do centro da capital, em redor de  Piccaddilly   Circus , depois de um dia de trabalho ,  e preparava-me para voltar a casa. Os cartazes com publicidades coloridas  ofereciam -me a luz necessária para me refugiar na leitura, enquanto esperava o autocarro que me levaria de regresso ao local que me concedia o conforto de lar  —  ainda que provisório. Nas minhas mãos, a vida triste de Esther  Greenwood revelava-se, ao mesmo tempo que trazia reflexos da vida da autora. Era uma tristeza que não partilhava, mas pela qual inevitavelmente sentia  algum tipo de identificação . Algumas passagens remetiam-me à própria solidão que  eu  sentia  —  e que se tornaria maior com o ano ao qual eu tinha acabado de dar as boas-vindas. Foi nesse compasso de espera, embrenhado pelas palavras de  Sylvia   Plath , com a forma da voz de Esther, que  uma outra voz me t...

Trás-os-Montes: o rural e o reverso

Obra de Nadir Afonso, pintor natural de Chaves. Que região tão contida no perímetro de um preconceito, bem como o povo (de buço, sem instrução) que, dizem alguns, fala a cantar e diz, dizemos, as sílabas todas: Trás-os-Montes. Sabemos já do nevoeiro no âmago do Inverno, das estradas torneadas à volta da montanha no caminho para as aldeias; das estalactites de gelo ao longo do caminho; de uma ou outra raposa, às vezes, um javali, se estivermos atentos; dos tons de castanho e de verde da paisagem. Esse, um dos lados de Trás-os-Montes. Os meus avós são a metonímia dessa ruralidade: os tempos de muito trabalho (lembro o epíteto de «bichos da palha», ganho pelo avô, Alípio, pelo seu cunhado, Arnaldo) depois da célere manhã de ceifa. Com eles, a minha avó Zelinda e a sua irmã Dora (nomes que se perderão), com pouco receio dos guardas franquistas, se completa o grupo dos protagonistas de histórias do trelo: o contrabando . A agricultura, o acomodar dos animais. As vacas, nomeá-las, vigiá-las ...

O Enredo Conjugal, de J. Eugenides

No momento em que escrevia este texto, acabava de pousar o Kindle junto a uma pilha de livros que há anos habitam a mesa de cabeceira da minha adolescência. Esse contraste, penso, representa não só duas eras diferentes, mas também duas Martas diferentes: a Marta que volta e meia consegue ser menos angustiada e mais ávida e, em viagem, rende-se à biblioteca do Kindle porque nela pode arrumar tantos livros quantos quiser; e a Marta que não dispensa a biblioteca física da sua casa, que leva anos sem se lembrar dos livros que tem (e, por vezes, de onde estão) e que só peca por não poder carregar todo o peso das estantes nas mochilas com que anda.  Dava por terminado  O Enredo Conjugal (2011) — The Mariage Plot — , de Jeffrey Eugenides, que encostara levemente junto a Emma , de Jane Austen, o que não deixa de ser uma coincidência menos engraçada do que a sensação de que, como todas as coincidências, esta também estava quase destinada.  Bom, eu explico.  O Enredo Con...

Ciclo ou círculo vicioso?

Fonte: Unsplash Hoje falamos-vos sobre uma expressão que todos usamos, mas nem sempre da forma certa. Com certeza que já todos dissemos ou ouvimos as duas formulações: «ciclo vicioso» e «círculo vicioso». E sim, todos percebemos o que alguém quer dizer quando usa uma ou outra expressão — a semântica, e portanto, o entendimento entre os falantes estão garantidos mesmo que a integridade da língua esteja comprometida.  Contudo, para aqueles que prezam o rigor da linguagem, saibam que há apenas uma expressão correcta entre estas duas, já que apenas uma delas significa exactamente o que queremos expressar.  Sem mais delongas, a única formulação correcta é «círculo vicioso».  Ora, quando ouvimos esta expressão — seja, erradamente, com o termo «ciclo», seja com «círculo» —, sabemos que o falante deseja sempre referir-se a um padrão do qual não se consegue ou se afigura, pelo menos, difícil sair. Usa-se, portanto, esta expressão com uma conotação negativa. E é fácil perceber porq...