Avançar para o conteúdo principal

Estada ou estadia?

Uma bela estada num destino paradísiaco
Estada e estadia — uma batalha perdida?  | Foto de Unplash


Há umas semanas, acabada de chegar a um hotel, diziam-me na recepção: «Boa estadia!». Foi aqui que surgiu a ideia de escrever, na Escrivaninha, no próximo 100 erros, sobre esse par confuso que é «estada» e «estadia».

É certo que o erro está amplamente disseminado. Faça-se uma pesquisa no Google por férias e hotéis e percebe-se a confusão e a a praga das «estadias» usadas indiscriminadamente. Mas, como na Escrivaninha não acreditamos em batalhas perdidas e ainda temos esperança de que os nossos leitores comecem a generalizar a correcção, vamos a explicações.

«Estada» é um substantivo feminino que, segundo o Dicionário Morais, significa: «ato de estar, ficar em algum lugar; assistência, permanência, detença.» Pode também designar um «andaime armado numa parede alta para acabar a sua construção», apesar de esta acepção nos parecer muito pouco usada.

O sentido mais comum de «estada» é mesmo o primeiro. Para vos ajudar a memorizar, leiam os exemplos abaixo:

a) Desejamos-vos uma boa estada no Hotel Brio.

b) A nossa estada em Ibiza foi memorável. Voltamos?

c) Reserve já a sua estada de alto gabarito nos apartamentos Britto.

d) Durante a sua estada em Paris, o José comeu croissants todos os dias. 

Já o termo «estadia», com origem na palavra italiana «stallia», e tantas vezes confundido com o primeiro, designa: «a demora que o capitão do navio fretado para transporte de mercadorias é obrigado a fazer no porto» ou mesmo «a demora forçada do navio mercante no porto de destino.»

Usam-se também neste contexto palavras compostas como «sobre-estadia» e «sub-estadia» para designar respectivamente casos de estada prorrogada ou encurtada em relação àquela que era a estadia acordada contratualmente. «Estada» trata-se de uma palavra que à partida se usa num contexto bem mais específico, e, acreditamos, menos comum para a maioria das pessoas.

Vamos aos exemplos.

a) Há regras muito específicas sobre a estadia dos navios no porto.

b) Quanto vais pagar pela estadia do teu barco?

c) Lamento, mas vai pagar uma multa porque a estadia no porto de embarque se prolongou além do acordado... 

d) As estadias de todos os meus barcos vão levar-me à ruína.

Já sabem: se eventualmente têm, quem sabe no Mónaco, um barco parado: cuidado com os valores da estadia! Se estão de férias ou tão-só a aproveitar a vida, desejamos-vos uma boa estada onde quer que estejam! 

Escrivaninha

 

Comentários

Anónimo disse…
Bom, tenho de viajar para começar a falar sobre as minhas estadas. Esclarecimento oportuno e divertido!

Mensagens populares deste blogue

Corpo de Cristo: BD e bordado

Sempre fui avessa a bordados. Na primária tínhamos de fazer trabalhos para o dia da mãe em ponto de cruz. As minhas linhas sobrepunham-se caoticamente em nós, todos os dias perdia uma agulha e ia, com a minha mãe, a quem daria aquele pano com meia dúzia de rosas esparsas, comprar o efémero instrumento de trabalho.  Ficava à porta da retrosaria, com vergonha da vendedora. "Mas ela fica toda contente porque vende mais uma agulha!" animava-me a minha mãe, depois de me repreender levemente por ter perdido mais uma! .  Quem diria que a minha relação com o bordado se redimiria através de uma novela gráfica: Corpo de Cristo , da autora galega Bea Lema.  Há experiências artísticas anteriores que combinam narrativa e têxtil, de autores como Aurélie William Levaux, Thisou Dartois e Gareth Brookes. Além destes, são dignas de menção as antigas arpilleras chilenas , que inspiraram a autora: bordados artesanais criados por um grupo de mulheres de Isla Negra, entre 1970 e 1990, durante...

O particípio passado com valor adjetival

  A  palavra “passado” — não o passado que passou, mas o adjectivo — é muitas vezes erradamente utilizada.  A culpa do erro? Atribuimo-la à confusão com uma outra classe de palavra: o advérbio , que  não  varia em género (masculino e feminino) e número (singular e plural).  Por causa deste quipróquo, dizemos amiúde “passad o ”, mesmo quando deveríamos usar “passada”, “passadas” ou “passados”,  conforme a expressão a que o adjectivo diga respeito. E sta confusão acontece apenas quando se usa o adjectivo num contexto temporal, isto é, com o sentido de  determinado tempo volvido,  já que a ninguém ocorre usar sempre “passado” noutros contextos, como: " A camisa foi mal  passado ."  " Quero os bifes bem  passado , por favor!", " A tarde e a manhã foram bem  passado ."  Toda a gente diz, e bem: A camisa foi mal  passada .  Quero os bifes bem  passados , por favor!  A tarde e a manhã foram bem  pass...

Quantos "se não" e "senão" cabem na língua?

O uso da conjunção "se" seguido de "não" assim como do substantivo "senão" é muitas vezes objeto de mal-entendidos. A semântica e a grafia desencontram-se, originando erros e significados que traem a intenção comunicativa do autor. Muitas vezes nos perguntam quando usar um e outro, qual o sentido e a grafia correspondente. Vejamos.   1) "Se não", como conjunção condicional, com o sentido hipotético, em que a concretização do acto descrito na segunda oração depende da realização da primeira, com o sentido de "no caso de não": ·      Se não comeres de forma saudável, o teu corpo ressentir-se-á. ·      Ficarás desidratado, se não beberes água. ·      Se não gostas da aletria, não a comas!   2) "Senão" com o sentido de consequência, podendo ser substituído pela expressão "caso contrário": ·      Estuda, senão chumbas. ·      Lê os  Lusíadas , senão ...