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Mensagens

Dicas para uma boa conversa

Hoje em dia, vivemos num mundo em que todas as conversas se podem transformar em algo político, entrando em terrenos perigosos que, muitas vezes, não representam bem a nossa maneira de ser ou pensar. Assim, e porque temos cada vez mais medo de sermos mal interpretados, temos também cada vez mais receio de utilizar as palavras e até de conversar. Contudo, isso só acontece não só porque o mundo é um lugar cada vez mais opinativo e polarizado, mas porque estamos cada vez mais aptos a comunicar com destreza e boa intenção. És um conversador? Gostas de meter conversa com toda a gente?  Óptimo! Para que haja boa comunicação entre as pessoas, o primeiro grande passo — e o mais essencial — é que haja  abertura  da parte dos intervenientes na conversa. Mas, sim, é verdade: há que saber conversar! Para que não haja confusões, é importante conhecer as palavras e saber usá-las nos seus diferentes contextos, mas também é preciso comunicá-las das melhor forma, ten...

Descriminar vs Discriminar

Photo by  Randy Fath  on  Unsplash Quando decidi sair de uma certa empresa onde trabalhei como redactora do departamento comercial, a minha certeza em fazê-lo tornou-se ainda mais firme quando recebi as contas finais  descriminadas  em vez de  discriminadas  — e isto sem querer  discriminar  (muito) o dito grupo de comunicação social. De facto, muitos de nós, mesmo falando e escrevendo com propriedade sobre determinados assuntos, quando emitimos uma opinião, quando falamos das leituras que fizemos, ou quando damos um ar da nossa graça e da nossa cultura, por vezes lá cometemos este lapso que logo mancha o mais erudito perfil. Na verdade,  descriminar  e  discriminar  são duas palavras semelhantes mas com grafias e significados diferentes. Por isso, memorizemos esta breve explicação e deixemos, de uma vez por todas, de as confundir. Discriminar  significa «separar, discernir, distinguir, trata...

Porque homens prudentes e ‘apoéticos’ têm pouco para dizer

Homens imprudentemente poéticos, Valter Hugo Mãe Passei os olhos pela contracapa vermelha e fiquei logo com eles a brilhar. Passei os dedos pelo envernizado e desdobrei a badana para me poder informar melhor sobre a minha compra, embora já soubesse que seria, inevitavelmente, uma óptima escolha. Não querendo exagerar,  Homens imprudentemente poéticos  foi uma bala que me esventrou mesmo ali no meio da barriga, e que me deixou a sentir um friozinho incomodamente agradável nas entranhas, ainda durante algum tempo depois de ter terminado a leitura.  Bem nos avisa José Tolentino Mendonça, nessa badana final de que eu falava (da 2.ª edição da Porto Editora) — esse pedaço de capa pelo qual não resisti a passar os olhos antes de me deixar levar fosse para onde fosse — e que eu subscrevo sem grandes rodriguinhos porque este livro é, verdadeiramente, uma «luminosa parábola que fica a reverberar muito tempo depois». Trata-se, pois, de uma daquelas histórias que n...

A fim de e outras coisas afins

Photo by  Mark Solarski  on  Unsplash 1) «Esta tarde vi o João nos Correios. Fui lá  afim de  levantar uma encomenda.» 2) « A fim de  analisarmos melhor o argumento acima desenvolvido, sigamos o seguinte raciocínio.» Qual das frases é a correcta? Se esta é uma daquelas dúvidas que volta e meia te vem bater à porta, nada temas! Na Escrivaninha sabemos bem o quão fácil é que nos deixemos levar por pequenas confusões destas e, por isso, procurámos arranjar uma solução que fique gravada na tua cabeça para nunca mais de lá sair. E é mais fácil do que imaginas! A frase correcta é a frase 2). Mas é também em contextos como o dessa frase que o erro mais ocorre, já que a locução  a fim de  é utilizada com mais frequência na escrita do que na oralidade e, na verdade, dificilmente optaríamos por utilizá-la no contexto diário representado pela frase 1). Ora bem: na frase 2)  a fim   de  é uma locução prepositiva (...

Utrecht sob o sol português

Na semana passada estive na Holanda. Inicialmente, fiz uma breve passagem por Sandpoort para visitar amigos que vivem nesta pequena vila onde a decoração simétrica da maioria das casas (sem persianas ou estores) faz lembrar um plano de Wes Anderson — e em que a pizzaria e restaurante de  kebabs  “Ramsés”, com motivos egípcios nos vidros e empregados indianos, é o mais efervescente símbolo multicultural. Fui também a Haarlem, aquela que dizem ser uma versão condensada de Amsterdão, mas da qual pouco vi, devido ao mau tempo. Depois de uma viagem de comboio, entretida pelas paisagens de vacas e titânicos moinhos, cheguei a Utrecht, uma cidade em que pulula a pressa jovial e a cadência da bicicleta, e que, como o amigo de um amigo terá observado ao chegar: “Looks like a movie where everyone is young and thin”. “Thinker on a Rock” Neste filme eu não seria nunca uma personagem muito relevante, já que para minha vergonha, não aprendi ainda a andar de bici...

Diz-me tu: é “o” ou “u”?

Photo by  Cytonn Photography  on  Unsplash No outro dia, uma aluna enviou-me, no final do seu e-mail, “comprimentos” em vez de “cumprimentos”. E porque as gralhas e erros têm, às vezes, o estranho poder de quase nos convencer, também eu fiquei ali uns segundos a ponderar: mas não, havia ali, de facto, um lapso. A aluna de que falo é estrangeira, está a aprender português do nível A2 e, entre todas as informações que processa sobre a complexa língua portuguesa, esta apresenta-se, decerto, na sua cabeça, como um pormenor — que com tempo e estudo, certamente, limará. Isto para dizer que em alunos estrangeiros — especialmente naqueles muito bons, como é o caso — este é um lapso totalmente perdoável. Contudo, esta confusão continua a observar-se em abundância por entre os discursos de vários nativos, adultos feitos e com as aulas de português (de outrora) em dia. Ora nesses, meus caros, o erro é praticamente imperdoável. Mas porque temos de manter essa espécie ...

O Marechal Piz Buin

Ilustração de José Manuel Sousa Eram dez horas, mas o calor já apertava. Estava «uma tosta» — como dizia a menina nortenha que se sentara com a família, mesmo junto ao nosso posto de observação e cujo corpo redondo quase não cabia no seu fato de banho amarelo. Àquela hora a Meia Praia ainda não tinha muita gente, mas certamente que o espaço entre os coloridos chapéus-de-sol diminuiria em breve, já que o sol brilhava com intensidade, o vento não soprava com demasiada força e a manhã prometia ser, no mínimo, radiante. Nós, éramos três — o que tornava o acampamento fácil de montar. Por isso, foi com rapidez e perícia que deixámos tudo no lugar e caminhámos lentamente para a beirinha da água. Naquele dia, as ondas rebentavam com uma firmeza delicada, um pouco antes dos tornozelos dos velhotes e dos joelhinhos das crianças que ali se acumulavam, ultrapassando, sem dificuldade, a zona de rebentação para aquela zona calma onde já todos nadavam sem dificuldade. Nadámos também n...