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Utrecht sob o sol português




Na semana passada estive na Holanda. Inicialmente, fiz uma breve passagem por Sandpoort para visitar amigos que vivem nesta pequena vila onde a decoração simétrica da maioria das casas (sem persianas ou estores) faz lembrar um plano de Wes Anderson — e em que a pizzaria e restaurante de kebabs “Ramsés”, com motivos egípcios nos vidros e empregados indianos, é o mais efervescente símbolo multicultural.
Fui também a Haarlem, aquela que dizem ser uma versão condensada de Amsterdão, mas da qual pouco vi, devido ao mau tempo. Depois de uma viagem de comboio, entretida pelas paisagens de vacas e titânicos moinhos, cheguei a Utrecht, uma cidade em que pulula a pressa jovial e a cadência da bicicleta, e que, como o amigo de um amigo terá observado ao chegar: “Looks like a movie where everyone is young and thin”.



Neste filme eu não seria nunca uma personagem muito relevante, já que para minha vergonha, não aprendi ainda a andar de bicicleta. Mas, para me enquadrar mais neste elenco holandês, sentei-me, à boleia, na parte de trás de uma e, com a minha alva pele, lá me senti especialmente acolhida ao passar veloz pelo Wittevrouwen, o bairro das “Mulheres Brancas”.
O povo holandês pareceu-me simpático e descontraído e a liberdade de Amsterdão materializou-se, em Utrecht, na mulher bem-vestida, mas descalça, que entrou num dos restaurantes a que fui, numa noite especialmente chuvosa.
Muitas pessoas loiras e de olhos claros, com uma altura acima da média portuguesa, na sua maioria estudantes, já que esta é uma cidade universitária, passeavam nas ruas planas, em que construções baixas, de tijolo, quase sempre em tons acastanhados (e com a simplicidade de telhados de desenhos infantis) prolongam o Outono.
A chuva e o vento fustigaram a minha visita, e permitiram perceber a importância dada ao conceito de gezelligheid, isto é, a sensação aconchegante de estar em casa, acompanhado por uma chávena de chá, uma manta, ou um livro. Talvez também isso justifique a quase ausência de cortinas, persianas ou estores: todas as janelas são indiscretas. Parece apetecer mostrar a felicidade quente do lar a um eventual transeunte.
Em termos gastronómicos, só as bolachas de canela spekulaas e as famosas stroopwafels me deram algum consolo. De resto, o brood (pão) tem demasiado protagonismo, não fosse a sandes — sobretudo do famoso queijo da região de Gouda — o almoço sucinto da maioria dos holandeses.
Além disso, a batata frita é um snack muito apreciado, como confirmaram as muitas bocas lambuzadas de miúdos holandeses. As frites vendem-se frequentemente em cones de papel, com molhos diversos: como maionese de amendoim (combinação demasiado moderna para mim), maionese de alho ou molho picante. Comem-se como pipocas, e com a habitualidade de uma refeição sem culpa. Lekker (delicioso), sem dúvida, mas pecaminoso na mesma medida.
Janta-se muito cedo, por volta das 18h, como numa aldeia transmontana. Bebe-se uma cerveja artesanal — como aquelas que havia, por exemplo, no restaurante do Monumental, em Lisboa, e anda-se, de seguida, pelos cinematográficos canais, a apreciar a beleza regrada da cidade, não sem alguma nostalgia e saudade tipicamente portuguesas.
Em suma, gostei de Utrecht. Mas talvez o sol português sob o qual escrevo não me permita uma opinião mais lisonjeira das terras holandesas.
Elsa

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