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Mensagens

O popular, o ridículo e o gracioso na dança clássica

Les Ballets Trockadero de Monte Carlo . Foto de Glam Magazine Escrevo estas linhas humildemente, como ex-estudante de ballet clássico. Não sou teórica da dança, nem tenho a pretensão de ser — e tenho até muitas reservas quanto a essa figura. Recordo-me de ter lido, em tempos, um ensaio algo pastoso da autoria de um conhecido ‘teórico da dança’ que explorava a ideia de uma certa força criadora presente nela, com referências (pasme-se!) ao parto. Pareceu-me uma divagação acriteriosa sobre o assunto, um  parlapié  (como, de resto, o meu), mas de quem, ao contrário de mim, nunca se entregou (julgo) a pliés , tendus , fondues ou adágios. É ingrato tecer considerações sobre uma arte quem apesar de tão exigente em termos físicos, transparece um halo de delicadeza, roçando o etéreo. Afinal, dificilmente essas considerações dirão justamente daquilo que na dança clássica se vê e sente. Parece-me que, por mais bem escrito e fluído que seja um texto sobre dança (seja el...

Ainda que preferisses não o fazer

O texto desta semana é inspirado neste conto de Herman Melville. Foto: Wook Ainda que preferisses não o fazer "I would prefer not to" Bartleby , Herman Melville O braço másculo do dia enlaça-te. Já tens o hercúleo esgar que o labor te dá. Ainda que preferisses não o fazer movimentas-te como herói até a lua em zelo descer a noite cénica, quase kitsch . Recolhes depois ao quarto abraçado ao tentáculo da consciência revendo as pantomimas do dia. Eventualmente ris até se erguer a manhã olímpica. Elsa Alves

«Manual de sobrevivência de um escritor», de João Tordo

  Foto da capa do livro  Há pouco tempo comprei – em pré-venda mas sem dar por isso – o último livro do João Tordo: Manual de sobrevivência de um escritor, ou o pouco que sei sobre aquilo que faço . Mergulhei nele sem ler a contracapa, exercício que algumas vezes faço simplesmente por achar que é divertido, e fui dar com um livro de «memórias» de um autor vivo – e jovem – que só não devorei em menos de uma semana e meia porque, felizmente, tenho muito mais para ler e, infelizmente, tenho muito mais coisas para fazer além disso.  E agora? Agora estou eu aqui tão exposta quanto o João porque com a minha leitura – e a sua velocidade – entrego de bandeja a quem me lê a minha maior fragilidade: o ter interesse neste assunto.  Pois é, gostar de escrever – e, sobretudo, não saber se se tem jeito para agarrar na caneta – é, provavelmente algo que todos os que comprarem este livro terão em comum. Mas, para bem ou para mal, terão também muitas outras de que Joã...

“Trata-se de”

Fonte: Unsplash No «100 erros» de hoje falamos-vos de um erro de sintaxe que, atrevemo-nos a dizer, é generalizado: o uso do verbo «tratar-se» seguido da preposição «de». É verdade. Mesmo aqueles que falam e escrevem bem podem já ter errado nesta construção que (admitimos) pode não ser totalmente evidente. Esperamos, contudo, que depois deste breve artigo fiquem esclarecidos e orgulhem o linguista mais rigoroso. Vejamos as seguintes frases: a)  « Trata-se de uma obra de Kandinsky». b)  « Trata-se de  obras de Kandinsky». Se ninguém tem dúvidas quanto à correcção da frase a), em relação à frase b) apostamos que há quem lhe torça (erradamente!) o nariz e pense que a opção correcta seria algo como: «Tratam-se de obras de obras de Kandinsky». Nada mais errado. Sem mais delongas, vamos a explicações. Tendo em conta que se trata de uma conjugação pronominal, com o significado de «dizer respeito a», «estar a falar-se de» , o verbo «tratar-se» deve usar-...

São João em casa

Hoje, 24 de Junho, é dia de São João. Mas todos sabemos que dia é este e porque é que o celebramos? Em primeiro lugar, importa lembrar que a identidade do São João que por aí se celebra não é consensual. Contudo, a versão mais popular é a de que o santo que festejamos de 23 para 24 de Junho é São João Baptista — o profeta judeu nascido em Jerusalém, primo de Jesus, tão citado nos quatro Evangelhos, e nascido perto de Jerusalém. Assim, na noite de 23 para 24 de Junho festejamos o milagroso nascimento de João Baptista, filho do sacerdote Zacarias e de Isabel – que, apesar de não poder ter filhos por ser estéril recebe, como Maria, mãe de Jesus, uma visita do Anjo Gabriel que lhe anuncia o nascimento do filho João. No entanto, é também importante salientar que a identidade deste santo católico em honra de cujo nascimento erguemos arraiais, marchas e fogueiras é apenas uma das razões pelas quais celebramos esta data. Aliás, crê-se que, antes de católica, esta era uma festa pagã destina...

À conversa com Camilo

À conversa com Camilo | Ilustração da Ana Xavier – Sou obrigado a pedir desculpa ao meu paciente leitor: aqui estou eu, novamente em deambulações que em nada interessam a quem me lê. Pobre de mim! – Desculpas dessas podiam ser facilmente evitáveis, não lhe parece? Não costumo ser tão adepta desta filosofia, mas estou convencida de que aqui se aplica! – Sabe, devia guardar essas suas rudes críticas para quem não seja, como eu sou, um baluarte da literatura portuguesa do século XIX! Meu caro, tenha respeito! – Pff... Camilo, nunca diria semelhante coisa! Até podia estar coberto de um orgulho aristocrático, mas se há coisa que me parece coerente na sua figura é essa sua constante vontade de ser vítima do mundo. Isso e, claro, o seu vocabulário maravilhosamente genioso! – Vítima do mundo?! Eu? – Então não é, senhor Castelo Branco? Bem sabe que na inocência dessa pergunta esconde precisamente essa sua... Pense lá comigo: passional ou terrífico, você e as suas criações (ou as suas criações e...

O flagelo dos particípios passados

Omitido ou omisso? Ganhado ou ganho? Entregado ou entregue? Encarregado ou encarregue? São perguntas que nos assolam a todos e, na maior parte dos casos, em situações bem pouco cómodas. E porquê? Porque não sabemos a regra e, muitas vezes, não percebemos bem qual o valor destas formas.  Então, antes de mais, saibamos que as formas acima são todas formas do particípio passado (PP) – com excepção do último caso ( encarregado ou encarregue ) e, como já vos dissemos, encarregue não existe como particípio passado.  Ora o particípio passado é utilizado com os tempos compostos (que utilizam um verbo auxiliar + particípio passado) e na voz passiva. Vejamos um exemplo de cada um destes cenários: 1) «Eu tinha estudado muito, por isso passei no exame sem dificuldade.» Aqui, estudado é o particípio passado de estudar e o tempo composto desta frase é o Pretérito Mais-que-Perfeito Composto do Indicativo. 2) «A maçã foi comida pelo João de uma assentada.» Aqui, comida é o particípio p...