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Mensagens

Conforme os pássaros

Unsplash || Umut YILMAN Recordas-te de quando nos sentávamos junto ao rio, a ver os pássaros? Estive lá hoje, no mesmo banco onde nos costumávamos sentar. Era a nossa rotina em manhãs de primavera. Era o início de dia perfeito, antes das alergias me tocarem a face e de sermos obrigados a abandonar o posto. Trocávamos e partilhávamos a vida como era costume, enquanto os pássaros nos sobrevoavam as cabeças, desafiando-nos sem que déssemos conta. Um dia, apercebeste-te do desafio e propuseste-mo. Na altura, não o vi como uma competição e jamais como uma forma de me apropriar de algo que não tinha o direito de conquistar. Na verdade, era uma competição que contava claramente com a confiança que tínhamos no bom fundo e honestidade um do outro — o que, embora saudável, não é o tipo de actividade que alguém se proponha a fazer com qualquer pessoa. Sugeriste-me que escolhesse um pássaro. Tu escolherias outro. A ideia era perceber quem conseguiria seguir o seu rasto durante mais tempo, ao mant...

Formas de ontem em palavras de hoje

Talvez não nos lembremos disso diariamente, mas a nossa língua nem sempre foi como é hoje. A História da Língua é a ciência que se dedica ao estudo da evolução da língua , quer no que diz respeito a mudanças sintácticas, morfológicas e gráficas específicas, quer no que concerne aos contextos culturais e socioeconómicos que lhes servem de pano de fundo. É, aliás, por isso que o conceito de nação não pode ser entendido apenas do ponto de vista territorial, mas também à luz da cultura e da língua que unem um determinado povo. Bom, mas o certo é que no Português Antigo (até à primeira metade do século XV) havia palavras — ou formas de palavras — que hoje não reconheceríamos. E hoje, na Escrivaninha, acende-se o «Pavio da vela» para darmos a conhecer aos nossos leitores algumas curiosas formas antigas com que nos deparámos durante a última semana, num manuscrito copiado no Mosteiro de Alcobaça por Estêvão Anes Lourido, em 1416 (formas essas que espelham a língua do original copiado e não n...

Preparar um discurso

Há quem tenha pavor a discursar. É o teu caso?  Foto: Unsplash Preparar um discurso é um verdadeiro suplício para muitas pessoas. Quer seja pela dificuldade em expressar certas ideias de forma clara ou por falta de confiança para falar em público (por maior ou menor que seja), muitos receiam uma apresentação oral na escola, na faculdade — as temidas defesas de tese — ou mesmo no emprego. Por isso, e esperando deixar a semente da oratória em muitos dos nossos leitores, no «Conversa Fiada» de hoje damos-vos algumas dicas sobre como preparar um bom discurso, bem estruturado, coerente, e que emane confiança e naturalidade, cativando a atenção dos ouvintes. A preparação do texto Em primeiro lugar é importante estudar de antemão e atempadamente o assunto sobre o qual se vai falar e, evidentemente, estruturar a apresentação. Depois de feita a devida investigação sobre o tema do discurso, e mesmo que já estejamos à vontade com a matéria de que vamos tratar, ter um qualquer suporte — texto ...

House of Leaves, de Mark Z. Danielwski

House of Leaves , de Mark Z. Danielewski despertou-me curiosidade assim que peguei nele. É quase inevitável para mim folhear um livro antes de me propor a lê-lo e, quando o fiz, deparei-me com uma mancha gráfica fora do comum, que parecia contrariar aquilo que eu concebia como um romance — precisamente a designação que o livro apresentava na capa. Esse primeiro contacto fez com que estivesse consciente, desde início, de que estava perante uma experiência de leitura diferente daquelas a que estava habituado. Tinha razão: mais cedo ou mais tarde, para seguir o rasto das notas de rodapé e, consequentemente, da narrativa, teria de virar o livro ao contrário, de o ler na diagonal, de voltar umas páginas atrás, à medida que ia explorando os anexos para não perder o fio à meada. Há duas tramas principais em House of Leaves . A primeira é a de Johnny Truant, o protagonista e o primeiro narrador, que trabalha numa loja de tatuagens e encontra, na casa do recém-falecido Zampanò, uma série de ano...

Sete de uma vez, do telhado para o chão.

A noite passada fui surpreendida com sete chamadas não atendidas. E eu, que sou muito mais atenta às pessoas do que ao telemóvel, devo admitir que o número de tentativas de contacto — ainda por cima ímpar — me deixou momentaneamente sem ar.  Não passava de uma brincadeira terna que me enterneceu, e repare-se que não pretendo atribuir responsabilidade a mais ninguém além de mim: eu sou a única responsável pelo sufoco. Eu que fui automaticamente catapultada para um lugar de culpa, para um fosso que escavei todas as vezes que procurei ter uma certa independência e a confundi com aquela infantil necessidade de ser desatenta.  Há uns anos o meu pai caiu do telhado. Sim, do telhado. Ele talvez já tivesse uns 67 anos e, esquecendo o perigo a que todos estamos sujeitos se cairmos de um telhado, é provável que ele se tenha rido bem mais do que eu que, nos meus aéreos 24 anos, não lhe atendi o telemóvel das duas vezes em que me ligou porque, à data, insistia em julgar que o rodopio de L...

Escrever, memórias de um ofício, de Stephen King

Capa de Escrever, Editora Bertrand Stephen King, nascido a 1947 em Portland, Maine, nome maior do terror na ficção.  Sobre as suas obras, numa entrevista a Charlie Rose, dizia Harold Bloom não serem verdadeira literatura — a par das obras de J. K. Rowling, da colecção Harry Potter . No mesmo programa, noutro episódio, dois outros professores de literatura contrariavam o estudioso, dizendo que o autor do Cânone Ocidental era snob , pois apesar de os livros destes autores não se integrarem na mais erudita literatura, eram histórias verosímeis, cativantes e bem escritas. Polémicas à parte, a verdade é que até aqui eu não lera nenhum livro de S. King. E, talvez devido à curiosidade que nos impele a indagar o ambiente à volta da escrita, as rotinas de um escritor, os motivos da escrita, comecei por Escrever . Nele, com sensibilidade e humor, S. King conta-nos o seu percurso de vida e de escrita : desde a persistente inflamação de ouvidos que o perseguia em miúdo, passando pelas cartas ...

A dor de cabeça das percentagens

Nos jornais, na televisão, nos trabalhos académicos, em livros de não-ficção (e de ficção) e até no futebol, as percentagens são um elemento a que recorremos diariamente. E porquê? Porque apresentar uma determinada informação sob a forma de percentagem — isto é, sob a forma de uma parcela de 100 — não só a torna muito mais intuitiva para quem a interpreta, como isso nos facilita (muito!) a comparação de dados. Mas a verdade é que nem sempre sabemos formular percentagens com correcção. Pois é, em torno das percentagens há pelo menos uma norma ortotipográfica e uma regra linguística e da língua portuguesa que devemos cumprir escrupulosamente. A primeira é simples: existe sempre um espaço entre o(s) algarismo(s) e o símbolo de percentagem (%). Assim:  50 % é o correcto,  e não 50%. A segunda regra já é um pouco mais difícil de decorar, dado que passa por perceber qual o termo com que deve concordar a forma verbal que utilizamos na frase em questão.  Ora bem, comece...