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Mensagens

A Little Life, de Hanya Yanagihara

A Little Life Quando decidi ler A Little Life , de Hanya Yanagihara, conhecia o suficiente sobre a obra para saber que me propunha a ler um romance difícil de digerir. Desconhecia, contudo, os motivos que me levariam a considerá-lo assim. Feita uma breve pesquisa, descubro que este é o segundo romance da autora americana, que é natural do Havai, mas vive em Nova Iorque — a cidade que serve de cenário à narrativa de A Little Life . Embora nunca lá tenha estado, sinto que estou perante uma representação fiel da cidade, como Hollywood jamais foi capaz de me apresentar. As primeiras páginas da obra transportam-me para um núcleo composto por quatro personagens: um grupo de amigos coeso, cuja amizade universitária resistiria para o resto da vida. Sou apresentado a Malcolm, uma personagem que ainda se está a descobrir e que vejo como aquele amigo que procura ficar sempre à margem dos conflitos. De todos, é o único que pode contar com um apoio financeiro estável da parte dos pais — o que surge...

Quarto sem vista

Pela porta de madeira escura, à direita, encostada à parede branca, a cama já ocupa o meu olho todo. É alta, tem 200 x 180 cm, um colchão gordo e sobre ele está esticado um edredão de penas azul-escuro, pesado como os que vivem nos quartos de hotel, cujos limites estão todos a dois centímetros do chão, medidos a olho de arquitecto. Não vejo os pés deste animal de sono, o que é sinal de que não tão cedo correrá na minha direcção e de que tenho tempo para bisbilhotices. Os lençóis, que só vejo quando levanto timidamente o edredão, estão repuxados como o cabelo de uma bailarina: tudo indica que passam por aquele tratamento de goma dos alojamentos turísticos para que nada saia do lugar e as pessoas sejam expelidas da cama antes do meio dia. Sobre a cama, quatro almofadas gordíssimas: duas invisíveis, debaixo da escuridão da coberta, outras duas de um azul-escuro-esverdeado, com uns apontamentos em linha recta pouco óbvios no canto superior direito de cada uma. Não há aqui simetria, mas há ...

«Cilício» e «silício»

No «100 erros» de hoje falamos-vos de duas palavrinhas homófonas — que se lêem exactamente da mesma forma mas têm grafias e significados diferentes. Embora não muito usadas no nosso dia-a-dia, é importante sabermos distinguir estes termos que, quando ouvidos ou lidos em certos contextos muito específicos, podem, pelo som idêntico, gerar alguma confusão.  Referimo-nos aos termos cilício e silício . Já ouviram falar deles? Pois bem, se não, vamos a explicações, munindo-nos do Dicionário Houaiss da Língua Portugues a.  Cilício com <c> vem do latim CILINICU e significa «uma túnica ou faixa de crina ou de um pano áspero e grosso» ou «um cinto ou cordão eriçado de cerdas ou correntes de ferro, cheio de pontas» usado como forma de penitência. Além disso, o cilício pode remeter para uma armação usada, em tempos, por soldados como protecção contra as armas de arremesso. Ademais, pode, em vez de designar a túnica de penitência que referimos, assumir o sentido figurado de «...

Conforme os pássaros

Unsplash || Umut YILMAN Recordas-te de quando nos sentávamos junto ao rio, a ver os pássaros? Estive lá hoje, no mesmo banco onde nos costumávamos sentar. Era a nossa rotina em manhãs de primavera. Era o início de dia perfeito, antes das alergias me tocarem a face e de sermos obrigados a abandonar o posto. Trocávamos e partilhávamos a vida como era costume, enquanto os pássaros nos sobrevoavam as cabeças, desafiando-nos sem que déssemos conta. Um dia, apercebeste-te do desafio e propuseste-mo. Na altura, não o vi como uma competição e jamais como uma forma de me apropriar de algo que não tinha o direito de conquistar. Na verdade, era uma competição que contava claramente com a confiança que tínhamos no bom fundo e honestidade um do outro — o que, embora saudável, não é o tipo de actividade que alguém se proponha a fazer com qualquer pessoa. Sugeriste-me que escolhesse um pássaro. Tu escolherias outro. A ideia era perceber quem conseguiria seguir o seu rasto durante mais tempo, ao mant...

Formas de ontem em palavras de hoje

Talvez não nos lembremos disso diariamente, mas a nossa língua nem sempre foi como é hoje. A História da Língua é a ciência que se dedica ao estudo da evolução da língua , quer no que diz respeito a mudanças sintácticas, morfológicas e gráficas específicas, quer no que concerne aos contextos culturais e socioeconómicos que lhes servem de pano de fundo. É, aliás, por isso que o conceito de nação não pode ser entendido apenas do ponto de vista territorial, mas também à luz da cultura e da língua que unem um determinado povo. Bom, mas o certo é que no Português Antigo (até à primeira metade do século XV) havia palavras — ou formas de palavras — que hoje não reconheceríamos. E hoje, na Escrivaninha, acende-se o «Pavio da vela» para darmos a conhecer aos nossos leitores algumas curiosas formas antigas com que nos deparámos durante a última semana, num manuscrito copiado no Mosteiro de Alcobaça por Estêvão Anes Lourido, em 1416 (formas essas que espelham a língua do original copiado e não n...

Preparar um discurso

Há quem tenha pavor a discursar. É o teu caso?  Foto: Unsplash Preparar um discurso é um verdadeiro suplício para muitas pessoas. Quer seja pela dificuldade em expressar certas ideias de forma clara ou por falta de confiança para falar em público (por maior ou menor que seja), muitos receiam uma apresentação oral na escola, na faculdade — as temidas defesas de tese — ou mesmo no emprego. Por isso, e esperando deixar a semente da oratória em muitos dos nossos leitores, no «Conversa Fiada» de hoje damos-vos algumas dicas sobre como preparar um bom discurso, bem estruturado, coerente, e que emane confiança e naturalidade, cativando a atenção dos ouvintes. A preparação do texto Em primeiro lugar é importante estudar de antemão e atempadamente o assunto sobre o qual se vai falar e, evidentemente, estruturar a apresentação. Depois de feita a devida investigação sobre o tema do discurso, e mesmo que já estejamos à vontade com a matéria de que vamos tratar, ter um qualquer suporte — texto ...

House of Leaves, de Mark Z. Danielwski

House of Leaves , de Mark Z. Danielewski despertou-me curiosidade assim que peguei nele. É quase inevitável para mim folhear um livro antes de me propor a lê-lo e, quando o fiz, deparei-me com uma mancha gráfica fora do comum, que parecia contrariar aquilo que eu concebia como um romance — precisamente a designação que o livro apresentava na capa. Esse primeiro contacto fez com que estivesse consciente, desde início, de que estava perante uma experiência de leitura diferente daquelas a que estava habituado. Tinha razão: mais cedo ou mais tarde, para seguir o rasto das notas de rodapé e, consequentemente, da narrativa, teria de virar o livro ao contrário, de o ler na diagonal, de voltar umas páginas atrás, à medida que ia explorando os anexos para não perder o fio à meada. Há duas tramas principais em House of Leaves . A primeira é a de Johnny Truant, o protagonista e o primeiro narrador, que trabalha numa loja de tatuagens e encontra, na casa do recém-falecido Zampanò, uma série de ano...