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Um dicionário dos diabos




Mas quem é que, afinal, lê um dicionário? E, ainda por cima, da perspectiva do diabo? Este pode ser o primeiro pensamento impulsivo e indignado de um leitor. Para rebater esse argumento convém desde já esclarecer que este não é um dicionário comum — não será sequer um “dicionário” no sentido mais normal do termo. Anima-o um espírito endiabrado que promete fazer rir os mais beatos.
Cáustico e humorístico, Bierce leva-nos a pensar se não haverá um discreto esgar ditatorial na maioria dos dicionários que nos sorri, tendo a pretensão de nos apresentar a verdade das palavras, e por extensão, a do mundo.
A definição de dicionário que Bierce apresenta menospreza precisamente esse outro dicionário banal, descrevendo-o como “um dispositivo literário malévolo para impedir o crescimento da língua e para a tornar rígida e pouco flexível”. Já o seu trata-se de “uma obra muito útil”.
Na esfera desta nova semântica, Bierce caricaturiza a alegria de certos conceitos. A noiva, por exemplo, é alguém que só atrás de si tem “excelentes perspectivas de felicidade”. Há pessimismo e descrença na calma que palpita nas definições felizes. Mas este não é um livro triste, trata-se antes de um compêndio de ironia, humor e de uma fina inteligência — que, aliás, os desenhos de Ralph Steadman condensam.



Nesta obra indubitavelmente literária, Ambrose Bierce testa, estica, leva ao limite as definições comuns, confronta-as com as suas falhas e lacunas, interpela-as e delas ri sem pudor — como acontece, por exemplo, quando define o advérbio “literalmente”: “Figurativamente, como em “O lago estava literalmente cheio de peixes”, “A praia estava literalmente 'às moscas'”. 
E comove, como em passagens poéticas, quando define "alívio": “Acordar cedo, numa manhã fria, e descobrir que é domingo” ou "hábito": “As algemas do homem livre”.
Bierce levou-me a ver a linguagem comum como uma velha entretida nas suas manias e vícios, à qual só (alguma) literatura pode dar, de novo, a tez brilhante de um outro significado.
Elsa
***
Obra: Dicionário do Diabo
Autor: Ambrose Bierce
Ilustrações: Ralph Steadman
Selecção e Tradução: Rui Lopes
Prefácio: Pedro Mexia
Editora: Tinta da China

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