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Mensagens

A Gorda, de Isabela Figueiredo

A Gorda A Gorda , de Isabela Figueiredo, apresenta-se como uma interessante e inesperadamente leve experiência de leitura que me transportou para as memórias de Maria Luísa: uma mulher de meia-idade que nos conta várias narrativas sobre diferentes âmbitos da sua vida. Este primeiro romance da autora cativou-me pela sua linguagem simples e honestidade despretensiosa. Hoje conto-vos porquê. A estrutura do romance aproxima-se à de um diário ou à de um livro de memórias, sendo contado na primeira pessoa. Os títulos de cada um dos capítulos correspondem a diferentes divisões da casa, que por sua vez se relacionam com as diversas temáticas que Maria Luísa decide discutir em cada uma. As histórias que nos conta são episódicas e muitas vezes interrompidas, dando espaço para novos eventos para, mais tarde, serem retomadas — tal como a nossa memória habitualmente o faz. Nestas histórias ficamos a conhecer o grande amor da vida da personagem, a relação com os pais, a forma como lidava com o peso ...

Espoletando e despoletando granadas por essa língua fora

Granadas por essa língua fora Fonte: Pixabay Há uns dias ouvíamos  A beleza das pequenas coisas —  o podcast de Bernardo Mendonça no Expresso  —, desta vez com a Sara Barros Leitão. E, embora muito mais atentos ao conteúdo da entrevista do que à forma, não fomos capazes de não notar dois momentos que perpetuam uma imprecisão muito comum na língua portuguesa. Num primeiro momento, pergunta Bernardo Mendonça: «Mas houve algo que despoletou isso? Houve um gatilho para sentires essa urgência de ter voz e de ter mensagens a passar?» Mais adiante, diz Sara Barros Leitão, a respeito dos seus «medos e fantasmas»: «A partir do momento em que tu aceitas dar uma entrevista, como eu estou a fazer hoje, obviamente que eu saio daqui e penso: "Pronto, tenho medo do que é que isto vai despoletar ." Por exemplo, tenho medo do que é que se vai escrever, descontextualizando aquilo que eu digo (...)» Ora, «despoletar» é um verbo que, como nestes dois casos, é muitas vezes confundido com o ...

Diálogos entre a prosa e a poesia — parte I

Se a prosa e a poesia fossem amigas, o que diriam uma à outra?  Provérbios preferidos  Prosa : «Grão a grão enche a galinha o papo».  Poesia : «Para bom entendedor, meia palavra basta». Férias   Prosa : Vou para Tormes. Lá sinto-me bem. Poesia : Vou para Pasárgada. Lá sinto-me bem também.  Serões de família  Prosa : A minha família? Numerosa e faladora, como eu! Enchemos a casa toda e à noite contamos histórias. Fazemos grandes jantaradas, dialogamos muito!  Poesia : Quase todos discretos... Gostamos da noite e de resolver charadas... Ah e de gatos e corvos falantes.  Aniversários  Prosa : Celebro sempre com uma festa de arromba e convido toda a gente — sobretudo muitas personagens secundárias! Protagonistas? Não! Nos meus anos, a protagonista sou eu! Sim sim e não me importa que me acusem de ser meta-literatura! ( deitando a língua de fora ).  Poesia : Não gosto de fazer anos... É  sempre um dia nostálgico... No...

A Little Life, de Hanya Yanagihara

A Little Life Quando decidi ler A Little Life , de Hanya Yanagihara, conhecia o suficiente sobre a obra para saber que me propunha a ler um romance difícil de digerir. Desconhecia, contudo, os motivos que me levariam a considerá-lo assim. Feita uma breve pesquisa, descubro que este é o segundo romance da autora americana, que é natural do Havai, mas vive em Nova Iorque — a cidade que serve de cenário à narrativa de A Little Life . Embora nunca lá tenha estado, sinto que estou perante uma representação fiel da cidade, como Hollywood jamais foi capaz de me apresentar. As primeiras páginas da obra transportam-me para um núcleo composto por quatro personagens: um grupo de amigos coeso, cuja amizade universitária resistiria para o resto da vida. Sou apresentado a Malcolm, uma personagem que ainda se está a descobrir e que vejo como aquele amigo que procura ficar sempre à margem dos conflitos. De todos, é o único que pode contar com um apoio financeiro estável da parte dos pais — o que surge...

Quarto sem vista

Pela porta de madeira escura, à direita, encostada à parede branca, a cama já ocupa o meu olho todo. É alta, tem 200 x 180 cm, um colchão gordo e sobre ele está esticado um edredão de penas azul-escuro, pesado como os que vivem nos quartos de hotel, cujos limites estão todos a dois centímetros do chão, medidos a olho de arquitecto. Não vejo os pés deste animal de sono, o que é sinal de que não tão cedo correrá na minha direcção e de que tenho tempo para bisbilhotices. Os lençóis, que só vejo quando levanto timidamente o edredão, estão repuxados como o cabelo de uma bailarina: tudo indica que passam por aquele tratamento de goma dos alojamentos turísticos para que nada saia do lugar e as pessoas sejam expelidas da cama antes do meio dia. Sobre a cama, quatro almofadas gordíssimas: duas invisíveis, debaixo da escuridão da coberta, outras duas de um azul-escuro-esverdeado, com uns apontamentos em linha recta pouco óbvios no canto superior direito de cada uma. Não há aqui simetria, mas há ...

«Cilício» e «silício»

No «100 erros» de hoje falamos-vos de duas palavrinhas homófonas — que se lêem exactamente da mesma forma mas têm grafias e significados diferentes. Embora não muito usadas no nosso dia-a-dia, é importante sabermos distinguir estes termos que, quando ouvidos ou lidos em certos contextos muito específicos, podem, pelo som idêntico, gerar alguma confusão.  Referimo-nos aos termos cilício e silício . Já ouviram falar deles? Pois bem, se não, vamos a explicações, munindo-nos do Dicionário Houaiss da Língua Portugues a.  Cilício com <c> vem do latim CILINICU e significa «uma túnica ou faixa de crina ou de um pano áspero e grosso» ou «um cinto ou cordão eriçado de cerdas ou correntes de ferro, cheio de pontas» usado como forma de penitência. Além disso, o cilício pode remeter para uma armação usada, em tempos, por soldados como protecção contra as armas de arremesso. Ademais, pode, em vez de designar a túnica de penitência que referimos, assumir o sentido figurado de «...

Conforme os pássaros

Unsplash || Umut YILMAN Recordas-te de quando nos sentávamos junto ao rio, a ver os pássaros? Estive lá hoje, no mesmo banco onde nos costumávamos sentar. Era a nossa rotina em manhãs de primavera. Era o início de dia perfeito, antes das alergias me tocarem a face e de sermos obrigados a abandonar o posto. Trocávamos e partilhávamos a vida como era costume, enquanto os pássaros nos sobrevoavam as cabeças, desafiando-nos sem que déssemos conta. Um dia, apercebeste-te do desafio e propuseste-mo. Na altura, não o vi como uma competição e jamais como uma forma de me apropriar de algo que não tinha o direito de conquistar. Na verdade, era uma competição que contava claramente com a confiança que tínhamos no bom fundo e honestidade um do outro — o que, embora saudável, não é o tipo de actividade que alguém se proponha a fazer com qualquer pessoa. Sugeriste-me que escolhesse um pássaro. Tu escolherias outro. A ideia era perceber quem conseguiria seguir o seu rasto durante mais tempo, ao mant...