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Mensagens

Detesto telefonemas

Falar ao telefone é, para alguns, um suplício. Fonte: Unplash Acabo de virar a página e o telefone toca. Detesto telefonemas. Sobretudo os que não sou eu a fazer e mais ainda os que me interrompem alguma tarefa prazerosa. Quem é que veio instaurar esta mania-hábito de estarmos em constante contacto uns com os outros, a todos os momentos do dia quando, se nos pusermos a relatar a nossa vida com esse tipo de regularidade, acabamos por ter tão pouco para dizer? Nos dias mais preenchidos (cheios de aplicações, chats e malditos aparelhos fervilhantes) ataca-me uma daquelas dores que insistem em testar a estrutura das minhas têmporas. São constantes ding-dings, vibrações, vozes baixinhas, leituras, estímulos visuais, correctores automáticos hitlerianos e tic-tics de teclas que só não choramingam por batermos tanto nelas porque não conseguem. E uma pessoa não pode ao menos detestar telefonemas? Detesto telefonemas. Sobretudo os de números que desconheço  (mesmo sabendo que posso perder ...

Escrever um bom ensaio literário

Fonte: Unsplash Já se percebeu que, por aqui, não subestimamos a escrita: a arte da palavra é difícil de domar sobretudo se tivermos em mãos a tarefa de escrever um ensaio literário. Escrever um bom ensaio (e há-os tão verborrágicos, tão adjectivados, cansados e longos como esta frase) pode ser desafiante. Por isso, hoje damos-vos alguns conselhos que podem ser úteis. Antes de mais, a questão que se impõe é: como saber se determinado tópico é ou não válido para tratar num ensaio? Escolher um problema, uma questão passível de ser argumentada — não um facto Um ensaio literário não se trata de simplesmente discorrer sobre o livro X ou Y, resumir a história e/ou dar a tua opinião sobre ela (como por vezes fazemos aqui, em freestyle, na Escrivaninha). Escrever um ensaio implica fazer uma pergunta específica ao texto e ver como ele nos responde. Trata-se de escolher uma questão passível de argumentar. Dizer, por exemplo, que Oliver Twist é a história de um órfão que viveu em meados do sécu...

A Gorda, de Isabela Figueiredo

A Gorda A Gorda , de Isabela Figueiredo, apresenta-se como uma interessante e inesperadamente leve experiência de leitura que me transportou para as memórias de Maria Luísa: uma mulher de meia-idade que nos conta várias narrativas sobre diferentes âmbitos da sua vida. Este primeiro romance da autora cativou-me pela sua linguagem simples e honestidade despretensiosa. Hoje conto-vos porquê. A estrutura do romance aproxima-se à de um diário ou à de um livro de memórias, sendo contado na primeira pessoa. Os títulos de cada um dos capítulos correspondem a diferentes divisões da casa, que por sua vez se relacionam com as diversas temáticas que Maria Luísa decide discutir em cada uma. As histórias que nos conta são episódicas e muitas vezes interrompidas, dando espaço para novos eventos para, mais tarde, serem retomadas — tal como a nossa memória habitualmente o faz. Nestas histórias ficamos a conhecer o grande amor da vida da personagem, a relação com os pais, a forma como lidava com o peso ...

Espoletando e despoletando granadas por essa língua fora

Granadas por essa língua fora Fonte: Pixabay Há uns dias ouvíamos  A beleza das pequenas coisas —  o podcast de Bernardo Mendonça no Expresso  —, desta vez com a Sara Barros Leitão. E, embora muito mais atentos ao conteúdo da entrevista do que à forma, não fomos capazes de não notar dois momentos que perpetuam uma imprecisão muito comum na língua portuguesa. Num primeiro momento, pergunta Bernardo Mendonça: «Mas houve algo que despoletou isso? Houve um gatilho para sentires essa urgência de ter voz e de ter mensagens a passar?» Mais adiante, diz Sara Barros Leitão, a respeito dos seus «medos e fantasmas»: «A partir do momento em que tu aceitas dar uma entrevista, como eu estou a fazer hoje, obviamente que eu saio daqui e penso: "Pronto, tenho medo do que é que isto vai despoletar ." Por exemplo, tenho medo do que é que se vai escrever, descontextualizando aquilo que eu digo (...)» Ora, «despoletar» é um verbo que, como nestes dois casos, é muitas vezes confundido com o ...

Diálogos entre a prosa e a poesia — parte I

Se a prosa e a poesia fossem amigas, o que diriam uma à outra?  Provérbios preferidos  Prosa : «Grão a grão enche a galinha o papo».  Poesia : «Para bom entendedor, meia palavra basta». Férias   Prosa : Vou para Tormes. Lá sinto-me bem. Poesia : Vou para Pasárgada. Lá sinto-me bem também.  Serões de família  Prosa : A minha família? Numerosa e faladora, como eu! Enchemos a casa toda e à noite contamos histórias. Fazemos grandes jantaradas, dialogamos muito!  Poesia : Quase todos discretos... Gostamos da noite e de resolver charadas... Ah e de gatos e corvos falantes.  Aniversários  Prosa : Celebro sempre com uma festa de arromba e convido toda a gente — sobretudo muitas personagens secundárias! Protagonistas? Não! Nos meus anos, a protagonista sou eu! Sim sim e não me importa que me acusem de ser meta-literatura! ( deitando a língua de fora ).  Poesia : Não gosto de fazer anos... É  sempre um dia nostálgico... No...

A Little Life, de Hanya Yanagihara

A Little Life Quando decidi ler A Little Life , de Hanya Yanagihara, conhecia o suficiente sobre a obra para saber que me propunha a ler um romance difícil de digerir. Desconhecia, contudo, os motivos que me levariam a considerá-lo assim. Feita uma breve pesquisa, descubro que este é o segundo romance da autora americana, que é natural do Havai, mas vive em Nova Iorque — a cidade que serve de cenário à narrativa de A Little Life . Embora nunca lá tenha estado, sinto que estou perante uma representação fiel da cidade, como Hollywood jamais foi capaz de me apresentar. As primeiras páginas da obra transportam-me para um núcleo composto por quatro personagens: um grupo de amigos coeso, cuja amizade universitária resistiria para o resto da vida. Sou apresentado a Malcolm, uma personagem que ainda se está a descobrir e que vejo como aquele amigo que procura ficar sempre à margem dos conflitos. De todos, é o único que pode contar com um apoio financeiro estável da parte dos pais — o que surge...

Quarto sem vista

Pela porta de madeira escura, à direita, encostada à parede branca, a cama já ocupa o meu olho todo. É alta, tem 200 x 180 cm, um colchão gordo e sobre ele está esticado um edredão de penas azul-escuro, pesado como os que vivem nos quartos de hotel, cujos limites estão todos a dois centímetros do chão, medidos a olho de arquitecto. Não vejo os pés deste animal de sono, o que é sinal de que não tão cedo correrá na minha direcção e de que tenho tempo para bisbilhotices. Os lençóis, que só vejo quando levanto timidamente o edredão, estão repuxados como o cabelo de uma bailarina: tudo indica que passam por aquele tratamento de goma dos alojamentos turísticos para que nada saia do lugar e as pessoas sejam expelidas da cama antes do meio dia. Sobre a cama, quatro almofadas gordíssimas: duas invisíveis, debaixo da escuridão da coberta, outras duas de um azul-escuro-esverdeado, com uns apontamentos em linha recta pouco óbvios no canto superior direito de cada uma. Não há aqui simetria, mas há ...