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Mensagens

De que falamos quando falamos de amor, de Raymond Carver

Foto: Relógio D'Água Embora também um poeta, Raymond Carver é essencialmente conhecido por ser contista. Na sua curta carreira, conta com várias colecções de contos sendo que aquela de que vos falo aqui foi a sua terceira publicação do género, no ano de 1981, sob o título What We Talk About When We Talk About Love .  O título da obra é também o título de um dos contos que a integra — talvez até dos mais famosos do autor e também dos que mais me ficou na memória depois de ter lido toda a colectânea — e foi traduzido por Carlos Santos e publicado em Portugal através da editora Relógio D’Água, com o título De Que Falamos quando Falamos de Amor . Através de um registo bastante episódico (vários destes contos passam-se num só espaço, num determinado momento, relatando apenas um evento), as relações que se estabelecem entre estas personagens revelam as suas fragilidades e fraquezas.  Muitas vezes estas acabam por se manifestar em casos de adultério, como, por exemplo, nos contos «Sa...

Velhos, lares e eufemismos

    Uma velha bonita. Fonte: Unsplash   «Lares», esses sítios para onde vão, para onde são enviados os idosos, os séniores — ah... o eufemismo na palavra... e que palavra... com veneno sibilante da serpente: a linguagem. Não gosto da ideia de lar e esta implicância começa na hipocrisia do nome. Para ir para um lar é necessário sair-se do seu. Os lares podem ser (são certamente) importantes para muita gente, mas posso não gostar deles? Para mim, o lar é um sítio asséptico e descaracterizado, em que o que devia ser amor e mimo se substitui por normas sensatas; onde prepondera a atitude temperada e as atividades têm sempre um odioso propósito qualquer... Julgo que o lar infantiliza os velhos ao «obrigá-los» a fazer ginástica ou uma coisa chamada «terapia do riso». Destitui-os dos vícios e das manias que a idade implantou, endureceu neles, ao seguir a máxima de que o que é bom para todos será bom para cada um deles.  Eu, que imagino os velhos como pessoas cravadas pelo t...

Janelas

Janelas indiscretas entretêm. Fonte: Unsplash No caminho do trabalho para casa, tinha por hábito perder-se entre os prédios, fascinado pelas janelas que, do outro lado, revelavam salas com luzes acesas. Para trás, deixava um dia de trabalho e olhava as janelas da mesma forma que estava habituado a ver outras pessoas olharem as estrelas. Daquela perspetiva, ao longe, eram realmente estrelas que lhe pareciam. Fontes de luz numa noite já cerrada, embora as horas acusassem apenas umas nove e meia da noite. Não conseguia ver o que acontecia do outro lado. Eram as janelas dos andares mais altos que o fascinavam. Não era o voyeurismo que o impelia a deter-se daquela forma. Era a realidade imaginada e as possibilidades que poderiam estar por trás delas que o cativavam, como se fosse um exercício ao qual se dedicava para libertar o seu potencial criativo. Ingenuamente, as imagens que lhe passavam pela cabeça das vidas que aqueles apartamentos poderiam guardar traziam-lhe sempre um gosto daquil...

Estada ou estadia?

Estada e estadia — uma batalha perdida?  | Foto de Unplash Há umas semanas, acabada de chegar a um hotel, diziam-me na recepção: «Boa estadia!». Foi aqui que surgiu a ideia de escrever, na Escrivaninha, no próximo 100 erros, sobre esse par confuso que é «estada» e «estadia». É certo que o erro está amplamente disseminado. Faça-se uma pesquisa no Google por férias e hotéis e percebe-se a confusão e a a praga das «estadias» usadas indiscriminadamente. Mas, como na Escrivaninha não acreditamos em batalhas perdidas e ainda temos esperança de que os nossos leitores comecem a generalizar a correcção, vamos a explicações. «Estada» é um substantivo feminino que, segundo o Dicionário Morais , significa: «ato de estar, ficar em algum lugar; assistência, permanência, detença.» Pode também designar um «andaime armado numa parede alta para acabar a sua construção», apesar de esta acepção nos parecer muito pouco usada. O sentido mais comum de «estada» é mesmo o primeiro. Para vos ajuda...

Detesto telefonemas

Falar ao telefone é, para alguns, um suplício. Fonte: Unplash Acabo de virar a página e o telefone toca. Detesto telefonemas. Sobretudo os que não sou eu a fazer e mais ainda os que me interrompem alguma tarefa prazerosa. Quem é que veio instaurar esta mania-hábito de estarmos em constante contacto uns com os outros, a todos os momentos do dia quando, se nos pusermos a relatar a nossa vida com esse tipo de regularidade, acabamos por ter tão pouco para dizer? Nos dias mais preenchidos (cheios de aplicações, chats e malditos aparelhos fervilhantes) ataca-me uma daquelas dores que insistem em testar a estrutura das minhas têmporas. São constantes ding-dings, vibrações, vozes baixinhas, leituras, estímulos visuais, correctores automáticos hitlerianos e tic-tics de teclas que só não choramingam por batermos tanto nelas porque não conseguem. E uma pessoa não pode ao menos detestar telefonemas? Detesto telefonemas. Sobretudo os de números que desconheço  (mesmo sabendo que posso perder ...

Escrever um bom ensaio literário

Fonte: Unsplash Já se percebeu que, por aqui, não subestimamos a escrita: a arte da palavra é difícil de domar sobretudo se tivermos em mãos a tarefa de escrever um ensaio literário. Escrever um bom ensaio (e há-os tão verborrágicos, tão adjectivados, cansados e longos como esta frase) pode ser desafiante. Por isso, hoje damos-vos alguns conselhos que podem ser úteis. Antes de mais, a questão que se impõe é: como saber se determinado tópico é ou não válido para tratar num ensaio? Escolher um problema, uma questão passível de ser argumentada — não um facto Um ensaio literário não se trata de simplesmente discorrer sobre o livro X ou Y, resumir a história e/ou dar a tua opinião sobre ela (como por vezes fazemos aqui, em freestyle, na Escrivaninha). Escrever um ensaio implica fazer uma pergunta específica ao texto e ver como ele nos responde. Trata-se de escolher uma questão passível de argumentar. Dizer, por exemplo, que Oliver Twist é a história de um órfão que viveu em meados do sécu...

A Gorda, de Isabela Figueiredo

A Gorda A Gorda , de Isabela Figueiredo, apresenta-se como uma interessante e inesperadamente leve experiência de leitura que me transportou para as memórias de Maria Luísa: uma mulher de meia-idade que nos conta várias narrativas sobre diferentes âmbitos da sua vida. Este primeiro romance da autora cativou-me pela sua linguagem simples e honestidade despretensiosa. Hoje conto-vos porquê. A estrutura do romance aproxima-se à de um diário ou à de um livro de memórias, sendo contado na primeira pessoa. Os títulos de cada um dos capítulos correspondem a diferentes divisões da casa, que por sua vez se relacionam com as diversas temáticas que Maria Luísa decide discutir em cada uma. As histórias que nos conta são episódicas e muitas vezes interrompidas, dando espaço para novos eventos para, mais tarde, serem retomadas — tal como a nossa memória habitualmente o faz. Nestas histórias ficamos a conhecer o grande amor da vida da personagem, a relação com os pais, a forma como lidava com o peso ...