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Mensagens

Desapercebido vs Despercebido

A isto se chama um bom disfarce — ou quase passar despercebido. Foto de  Michael Held em  Unsplash Hoje falamos-vos de duas palavras que por vezes se confundem devido às suas semelhanças, mas que têm significados diferentes — o par d esapercebido vs despercebido .   A única diferença na grafia destes dois termos é aquele «a» em «desapercebido» — a passar desapercebido a alguns. Ambos se formam com o prefixo latino -des , que indica oposição/separação em relação ao verbo sem prefixo.  Ora, despercebido é o particípio passado de «desperceber» e  « desapercebido» é o particípio de «desaperceber».  No que toca à semântica, significam coisas muito diferentes. Desapercebido é sinónimo de «desprevenido», «desacautelado», isto é,  « sem a devida preparação, ou ainda  « desprovido de munições ou provisões » . Já «Despercebido» significa:  « que não se viu nem ouviu; que não se notou, a que não se prestou atenção ou que se ignorou » .  Vamos a ex...

O clube de vídeo da minha rua

Ainda se lembram dos clubes de vídeo?  Fonte: Unsplash Fazia um frio intenso na cidade de Bristol em fevereiro. Acreditava que um ano a viver no Reino Unido me teria preparado para as temperaturas baixas, mas as primeiras impressões ali contrariavam-no. Sentia-o nos ossos e na pele seca, ressentindo o frio. Era a primeira vez que visitava a cidade, que me transmitia uma estranha sensação familiar. Não era que me fizesse sentir em casa; mas parecia comunicar com algumas cidades portuguesas que conhecia, mas onde nunca tinha vivido. Talvez a relação que estabeleço entre Bristol e estas cidades a que me refiro seja inocente, demonstrando que não conheço realmente nenhuma delas. Ou talvez refletisse um sentimento de nostalgia e melancolia causado pelas saudades de casa, que já se começavam a fazer sentir naquela altura. Ainda assim, uma das ruas mais largas de Bristol fez-me por momentos sentir que estava na Avenida dos Aliados, no Porto. Também a Ponte de Clifton, embora muito dif...

Entrevista a Carolina Zuppo Abed

Esta semana, no Ler para Crer, entrevistamos a autora brasileira contemporânea Carolina Zuppo Abed. Além de escritora, a Carolina é professora no Brasil, onde dá aulas de escrita literária. Entrámos em contacto com ela para uma breve entrevista sobre o seu percurso como escritora; a pertinência de cursos e oficinas de escrita leccionados em Portugal e no Brasil, e o modo como são encarados nos dois países. Com três livros disponíveis para compra em Portugal – e um quarto pelo qual aguardamos e que se pode encontrar atualmente no mercado brasileiro –, já perspetiva mais dois, dos quais também tivemos oportunidade de falar brevemente. Façam bom proveito da entrevista à querida Carolina  –  no embalo da ginga deste belo português.   Carolina Zuppo Abed   – Podes contar-nos um pouco da tua trajetória, enquanto professora e escritora ?   Essa é uma trajetória longa, e nela se confundem um pouco os dois papéis que ocupo no sistema literário. Comecei a escrever muito p...

Homenagem em forma de pergunta

Todos sabemos que os profissionais de saúde (médicos, enfermeiros e auxiliares) foram essenciais quando a COVID-19 entrou em cena. Foi também na altura em que a comunidade médica mais precisava de alento que Marta Temido injustamente apelou à sua resiliência extra e que, numa triste ironia, Costa lhes chamou «cobardes» em off . Em jeito de singela homenagem decidimos entrevistar alguns médicos jovens, que enfrentam, durante a formação especializada, as duras primeiras provas de fogo. Aqui ficam alguns dos seus testemunhos sobre como é afinal trabalhar a cuidar dos outros. Esta é a primeira parte da nossa singela "Homenagem em forma de pergunta". *** Sandra Cristina Fernandes Pera Médica de Medicina Geral e Familiar Sandra Fernandes 1) Porquê Medicina? Porque Medicina é um mundo. Aprendo imenso com as histórias dos pacientes. É uma área que me faz ver que não há duas pessoas iguais: cada doente pede um tratamento, um cuidado e atenção personalizados, individualizados. 2) Aquel...

Tão pouco e tampouco

  Muitas são as diferenças entre este par e, no entanto, confundimo-lo constantemente. É verdade que nuestros hermanos usam mais do que nós o «tampouco», que parece quase ter caído em desuso entre nós, portugueses. Mas não é difícil usá-lo em condições e orgulhar o peito luso. Na expressão «tão pouco» temos duas palavras. «Tão» é advérbio e «pouco» pode ser usado como advérbio (frase 3.) ou como pronome indefinido, e neste último caso concorda em género e número com o nome a que diz respeito (frases 1, 2 e 4.) Vejamos como e quando usá-las. Ex: 1. Tenho tão pouco dinheiro e tão pouca ambição para ganhar mais... — chorou o Manuel. 2. É só cunhas! Tão pouco mérito nessa tua nomeação, Álvaro! 3. Sei tão  pouco ... — pensou. 4. Há tão poucos alunos estudiosos... Tão pouca sede de aprender. Já «tampouco» é apenas uma palavra formada por aglutinação e trata-se de um advérbio com o sentido de «também não», «sequer», «muito menos».  Já «tampouco» é apenas uma pa...

Diálogos entre a prosa e a poesia — parte II

Fonte: Unsplash   Rotinas Prosa : Tive uma semana tão atarefada e intensa! Nem imaginas: aulas de step , idas à praia, piqueniques, viagens... Ufa! E o melhor? Nestas idas e voltas ficam a saber-se coisas! Sabias que o Jaime foi despedido da empresa onde trabalhava? E que a Patrícia se casou com o Eduardo, o coxo? Poesia : Não atribuas essas categorias redutoras às pessoas... E, por favor... saí agora do yoga , ainda me sinto a levitar. Tem dó de mim. Não me satures com banalidades. Prosa  ( pensando) : É por essas e por outras que ninguém a atura... Na perfumaria Poesia : Não sei qual deles levar... o perfume ou o creme de mãos? Prosa : Nem eu, cheiram todos tão bem... E a textura deste sérum ?  Poesia : E porque não levamos tudo? Prosa : As más línguas vão-nos chamar «sinestésicas». Poesia   (sedutora) : Ora, se os inebriarmos não nos chamarão nada... Pratos favo...

De que falamos quando falamos de amor, de Raymond Carver

Foto: Relógio D'Água Embora também um poeta, Raymond Carver é essencialmente conhecido por ser contista. Na sua curta carreira, conta com várias colecções de contos sendo que aquela de que vos falo aqui foi a sua terceira publicação do género, no ano de 1981, sob o título What We Talk About When We Talk About Love .  O título da obra é também o título de um dos contos que a integra — talvez até dos mais famosos do autor e também dos que mais me ficou na memória depois de ter lido toda a colectânea — e foi traduzido por Carlos Santos e publicado em Portugal através da editora Relógio D’Água, com o título De Que Falamos quando Falamos de Amor . Através de um registo bastante episódico (vários destes contos passam-se num só espaço, num determinado momento, relatando apenas um evento), as relações que se estabelecem entre estas personagens revelam as suas fragilidades e fraquezas.  Muitas vezes estas acabam por se manifestar em casos de adultério, como, por exemplo, nos contos «Sa...