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A queimadura




A água fervia quando caiu no braço prático. De seguida, soou a reacção da boca com uma ordem.

O braço direito foi, então, para o hospital («imagine-se», dizia a mente castradora) dentro de um pirex com água — porque não suportaria, de outro modo, os poros a gritar, intumescidos e furibundos, de dor. Na sala de espera, todas as bocas alheias se riram discretamente dele — havia-lhe dito o canto de um olho, que, de resto, nunca fora muito fiável, pelo pendor exagerado que sempre dava a determinados ângulos.
De seguida, o braço teve direito a um comprimido rosa de compaixão e a um creme espalhado por mãos técnicas e cuidadosas.
Como era de esperar, ao regressar a casa, o braço fez todos os pedidos que a uma vítima são devidos. Era, como muitos doentes, vermelho e raivoso (ainda) com o que lhe acontecera.
Além disso, não estava senão habituado ao protagonismo que quase sempre se outorga a um braço direito: na escrita, no gesto, na utilidade de tudo o que fazia (congratula-se agora mesmo pelo elogio).
Não podia, portanto, habituar-se àquele novo posto de resguardo, sob um penso de parafina e uma liga grossa. E, como se não bastasse perder o estatuto do intelecto e da utilidade, a pele escurecia, saía em escamas — perdendo a honra, em despedida. Piorando tudo, na sua malícia e coscuvilhice, os olhos entretinham-se com a apreciação algo sádica do aspecto do outrora glorioso braço direito.
Segundo constou aos ouvidos, daqui a uns tempos, o braço renascerá com um novo fulgor, uma tez mais macia, jovem e brilhante. Mas, como diz o olho céptico ao canto do olho incauto: «Ver para crer».
Elsa

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