Avançar para o conteúdo principal

O peculiar verbo haver




O verbo haver é um verbo peculiar que muitos de nós não conjugam correctamente. Por isso, no 100 erros de hoje, vamos tentar dissipar as dúvidas que sobre ele recaem.
Se, como na grande maioria dos verbos, a conjugação se torna sempre uma lengalenga escolar — como, por exemplo, em «eu canto, tu cantas, nós cantamos, vós (este, saudoso!) cantais, nós cantamos, eles cantam» — , no verbo haver há só uma destas formas.
Obviamente que tal não se aplica quando o verbo haver é auxiliar, como acontece nas frases seguintes, e que referimos a título de exemplo:
a) Eu hei-de ser bem-sucedido!
b) Eles hão-de considerar essa hipótese.
Porém, quando o verbo haver é verbo principal, conjuga-se apenas na 3.ª pessoa do singular, mesmo que o objecto directo a que se refira seja uma expressão no plural, tal como provam os seguintes exemplos:
A) Há folhas por todo o lado.
B) Houve reis gordos.
C) Havia uma fila enorme…
D) Haverá planetas com vida no sistema solar?
E) Haveria mais chocolates, se não comesses tantos!
Contudo, se todos sabemos perfeitamente que devemos conjugar o verbo haver na 3.ª pessoa do singular, em frases como a A), no Presente do Indicativo, por outro lado, quando o verbo se encontra, como na frase B), no Pretérito Perfeito Simples do Indicativo, alguns de nós chacinam o verbo haver sem dó nem piedade.
Deste acto facínora surgem, inevitavelmente, «não frases» como «Houveram, noutros tempos, Trex assustadores», ao invés da versão correcta: «Houve, noutros tempos, Trex assustadores».
Infelizmente, é um erro crasso e não tão escasso assim! Por isso, lembrem-se que houve e há verbos, como o haver, que merecem, antes de os escrevermos, uma ponderação maior.
Escrivaninha

Mensagens populares deste blogue

Corpo de Cristo: BD e bordado

Sempre fui avessa a bordados. Na primária tínhamos de fazer trabalhos para o dia da mãe em ponto de cruz. As minhas linhas sobrepunham-se caoticamente em nós, todos os dias perdia uma agulha e ia, com a minha mãe, a quem daria aquele pano com meia dúzia de rosas esparsas, comprar o efémero instrumento de trabalho.  Ficava à porta da retrosaria, com vergonha da vendedora. "Mas ela fica toda contente porque vende mais uma agulha!" animava-me a minha mãe, depois de me repreender levemente por ter perdido mais uma! .  Quem diria que a minha relação com o bordado se redimiria através de uma novela gráfica: Corpo de Cristo , da autora galega Bea Lema.  Há experiências artísticas anteriores que combinam narrativa e têxtil, de autores como Aurélie William Levaux, Thisou Dartois e Gareth Brookes. Além destes, são dignas de menção as antigas arpilleras chilenas , que inspiraram a autora: bordados artesanais criados por um grupo de mulheres de Isla Negra, entre 1970 e 1990, durante...

O particípio passado com valor adjetival

  A  palavra “passado” — não o passado que passou, mas o adjectivo — é muitas vezes erradamente utilizada.  A culpa do erro? Atribuimo-la à confusão com uma outra classe de palavra: o advérbio , que  não  varia em género (masculino e feminino) e número (singular e plural).  Por causa deste quipróquo, dizemos amiúde “passad o ”, mesmo quando deveríamos usar “passada”, “passadas” ou “passados”,  conforme a expressão a que o adjectivo diga respeito. E sta confusão acontece apenas quando se usa o adjectivo num contexto temporal, isto é, com o sentido de  determinado tempo volvido,  já que a ninguém ocorre usar sempre “passado” noutros contextos, como: " A camisa foi mal  passado ."  " Quero os bifes bem  passado , por favor!", " A tarde e a manhã foram bem  passado ."  Toda a gente diz, e bem: A camisa foi mal  passada .  Quero os bifes bem  passados , por favor!  A tarde e a manhã foram bem  pass...

Trás-os-Montes: o rural e o reverso

Obra de Nadir Afonso, pintor natural de Chaves. Que região tão contida no perímetro de um preconceito, bem como o povo (de buço, sem instrução) que, dizem alguns, fala a cantar e diz, dizemos, as sílabas todas: Trás-os-Montes. Sabemos já do nevoeiro no âmago do Inverno, das estradas torneadas à volta da montanha no caminho para as aldeias; das estalactites de gelo ao longo do caminho; de uma ou outra raposa, às vezes, um javali, se estivermos atentos; dos tons de castanho e de verde da paisagem. Esse, um dos lados de Trás-os-Montes. Os meus avós são a metonímia dessa ruralidade: os tempos de muito trabalho (lembro o epíteto de «bichos da palha», ganho pelo avô, Alípio, pelo seu cunhado, Arnaldo) depois da célere manhã de ceifa. Com eles, a minha avó Zelinda e a sua irmã Dora (nomes que se perderão), com pouco receio dos guardas franquistas, se completa o grupo dos protagonistas de histórias do trelo: o contrabando . A agricultura, o acomodar dos animais. As vacas, nomeá-las, vigiá-las ...